segunda-feira, 8 de março de 2021

Produção de conhecimento - Uma característica fundamental das Sociedades humanas

Primeiras Palavras

Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em setembro de 2014, informava que 805 milhões de pessoas passavam fome em todo o mundo. Esse número representava um em cada nove seres humanos que viviam no planeta. A ONU também apontava que a maior parte dos que passavam fome vivia em países em desenvolvimento. Isso nos mostra que, em pleno século XXI, antigos problemas continuam a desafiar a humanidade. Por isso, é cada vez mais importante compreender o mundo e os fenômenos que fazem parte do dia a dia.


Para cada problema vivenciado por homens e mulheres em vários lugares da Terra, como a falta de comida ou a distância entre duas cidades, diferentes sociedades encontraram diferentes soluções. Entretanto, tendo como referência a história ocidental até o final da Idade Média, essa busca por conhecimento e soluções não acontecia em relação às transformações e aos conflitos sociais: os choques entre religiões, os conflitos geracionais, a estrutura familiar e a organização política e econômica, entre outros, eram entendidos como fenômenos naturais ou como resultados da providência divina. Nesses casos, não cabia à humanidade interferir. Uma realidade na qual não se pode intervir não é vivida como um problema, mas como um destino, e um destino não pode ser objeto da ação humana e do conhecimento científico.

Somente a partir do século XVIII, por causa das grandes revoluções que ocorreram no período, as sociedades e suas diferentes realidades começaram a ser discutidas e vistas como construções passíveis de serem transformadas pela ação humana. Mais do que isso, essas transformações poderiam ser realizadas considerando objetivos traçados pela própria sociedade, com base em princípios éticos modernos que propunham a liberdade, a igualdade e a fraternidade contra a servidão, a hierarquia e a exploração.

O contexto social que mudou o modo como as sociedades ocidentais olhavam para si mesmas e as converteu em objeto da ciência foi um processo sócio-histórico que envolveu três grandes revoluções: uma econômica (Revolução Industrial), uma política (Revolução Francesa) e outra cultural (Iluminismo).

Nesse contexto, o conhecimento religioso e filosófico construído ao longo dos séculos foi confrontado com outro modo de compreender a realidade social: o conhecimento científico. Somente então foi possível o surgimento da Sociologia, ciência que objetiva compreender os conflitos, as permanências e as transformações das sociedades contem-porâneas. Em conjunto com a Antropologia e a Ciência Política, a Sociologia constitui o campo do conhecimento denominado Ciências Sociais.

Elas buscam compreender a realidade social e propor soluções para os inúmeros conflitos sociais contemporâneos. Ainda que, na prática, a divisão entre as três ciências não seja rigorosa, por convenção, a Antropologia prioriza os fenômenos culturais, a Ciência Política, as relações de poder e instituições políticas, e a Sociologia, a análise das relações e estruturas sociais.

Neste capítulo, iniciaremos juntos a caminhada para entender como a Sociologia nos permite desnaturalizar nossas certezas e por que o método científico é uma ferramenta indispensável para o sucesso dessa empreitada.

 

Desnaturalizar

A ideia de desnaturalização ou estranhamento na Sociologia consiste em perceber os fenômenos sociais como construções humanas resultantes de outros fenômenos sociais, não como aspectos imutáveis da natureza.

   

As diferentes formas de conhecimento

A espécie humana não se limita a sobreviver no mundo. Ela também procura entendê-lo e modificá-lo de acordo com as diferentes formas como percebe a realidade. Essa busca, que articula a realidade objetiva (como se apresenta aos sentidos) e a realidade subjetiva (tal qual é percebida pelos indivíduos), é a matriz sobre a qual se constrói o que convencionamos chamar conhecimento.

Podemos definir o conhecimento como toda compreensão e prática adquiridas, cuja memória e transmissão permitem lidar com as tarefas do dia a dia. Quando uma pessoa age de acordo com sua experiência de vida, expressa uma forma de conhecimento do mundo. Correr a favor do vento e segurar um martelo pelo cabo são habilidades adquiridas com a experiência, um tipo de conhecimento construído na vida comum. Do mesmo modo, quando um cientista anuncia uma descoberta, também apresenta um tipo de conhecimento sobre a realidade. Portanto, podemos afirmar que somos todos capazes de produzir conhecimento, mas existem diferenças de acordo com a forma como esse conhecimento é produzido.

Orientado pela experiência e transmitido por gerações, o conhecimento produzido nas sociedades adquire formas tão diversas quanto as próprias sociedades. Pode-se, por exemplo, resolver um problema imediato (como atravessar um rio sem se afogar), responder a uma questão transcendental, isto é, que vai além da nossa existência material (como o sentido da vida e da morte), resolver uma pendência social (como determinar o justo proprietário de uma terra) ou desvendar as estruturas do Universo (de que forma definir a menor partícula que compõe a matéria).

É possível tentar explicar as mais diversas questões com base na experiência ou mediante o que se aprende com os pais, na crença em Deus ou em um livro sagrado, em sistemas lógicos de pensamento ou, ainda, em regras e critérios sistemáticos de investigação e de verificação.

 As explicações obtidas com regras e critérios sistemáticos de investigação e de verificação constituem a forma de conhecimento que chamamos de ciência.

Pela possibilidade de ser criticada e corrigida, pela flexibilidade para absorver inovações e expandir sua área de atuação, peta eficiência na forma como orienta a intervenção no mundo, pelo caráter plural que permite sua prática em diferentes culturas, a ciência é hoje o modo mais aceito de produção de conhecimento. No entanto, ainda que ela seja importante para a produção material da sociedade, outros conhecimentos produzidos no dia a dia, baseados na prática e na experiência, estão presentes na vida social. As conquistas das lutas políticas e a eficácia dos saberes tradicionais dos povos, assim como diferentes produtos da inteligência coletiva (desenvolvida por meio do trabalho colaborativo e disponibilizada para a sociedade especialmente por meio das novas tecnologias informacionais, como a internet), são exemplos disso.

 

Conhecimento religioso

O fato de a ciência ser o meio de produção de conhecimento mais amplamente aceito nas sociedades industrializadas não significa que outros meios tenham desaparecido. Quando o conhecimento sobre o sentido da vida ou sobre como proceder diante da inevitabilidad e da morte é fundamentado na crença em Deus ou em um livro sagrado, ele é chamado conhecimento teológico ou religioso.

 

 

SAIBA MAIS

 

 

Religião 

A religião pode ser entendida como o conjunto de crenças e práticas comuns de uma coletividade, organizado com base em uma ou mais divindades, que determinam os princípios morais desse grupo e suas interpretações do mundo. Cada expressão ou manifestação religiosa se caracteriza por símbolos e rituais específicos. As tradições religiosas mais difundidas na atualidade são o cristianismo, o islamismo, o hinduísmo, o judaísmo e o budismo. Além dessas, existem milhares de outras manifestações religiosas em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, convivem centenas de religiões, que podem ser reunidas em cinco grandes grupos: católicos, evangélicos, espíritas, afro-brasileiros e de outras manifestações religiosas, como o islamismo, o judaísmo, o budismo e o hinduísmo. Estas últimas representam apenas uma pequena parcela das crenças religiosas dos brasileiros.

 

No Brasil, 92% da população declara ter religião. Na foto, igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis em Ouro Preto (MG, 2015).

 

Grandes grupos de religião no Brasil (em relação à população total)

Católica Apostólica Romana

Evangélicas

Espíritas

Umbanda e Candomblé

Outras religiosidades

Sem religião

64,6%

22,2%

2,1%

0,4%

2,7%

8,0%

Fonte: IBGE. Censo demográfico 2010: resultados gerais da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.

 

 

Diferentemente da ciência, a religião é um conhecimento sustentado peta crença na existência de uma realidade exterior ao mundo que influencia a percepção e a explicação da realidade social. Seus ensinamentos orientam uma compreensão e uma prática da vida fundamentadas nos princípios religiosos.

 

Conhecimento filosófico

A Filosofia também procura explicar a realidade. Mas, diferentemente da fundamentação religiosa, que tem como princípio a fé em uma verdade revelada, amparada em um ou mais deuses ou profetas, a Filosofia empreende um esforço para dar sentido racional aos mistérios do mundo com base no questionamento e na reflexão.

Ainda que seus resultados não precisem ser comprovados em testes de verificação, eles não podem deixar de obedecer aos princípios da razão. Ao procurar responder a questões como "o que é?", "como é?" e "por que é?", em outras palavras, ao buscar a essência, a significação e a origem das coisas, a Filosofia se vale do pensamento racional e da lógica para justificar e sistematizar o conhecimento que produz.

 

SAIBA MAIS

 

 

Filosofia e Filosofia das Ciências Sociais

 

A Filosofia é uma disciplina acadêmica que está inter-relacionada com diferentes campos do saber, pois trabalha com questões como a natureza do entendimento, da lógica, da linguagem e da causalidade. Essas questões são importantes para diferentes ciências, entre elas a Sociologia.

Por esse motivo, existe uma especialidade filosófica chamada Filosofia das Ciências Sociais, que se propõe, entre outras coisas, a questionar os fundamentos da construção teórica, dos métodos de coleta de dados e dos resultados da Sociologia.

O questionamento dos fundamentos da ciência promovido pela Filosofia é importante para que a Sociologia continue a se transformar, de maneira que aprimore suas técnicas, renove seu compromisso ético e aperfeiçoe os resultados.

Assim, a Filosofia das Ciências Sociais pesquisa os processos de construção de conceitos, a relação entre a teoria e a realidade, o lugar dos valores em sua argumentação, a natureza da ação, o papel da linguagem e as formas para comprovar uma teoria sociológica.

 

 

Bibliografia

Sociologia em movimento. — 2. ed. — São Paulo : Moderna, 2016.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A família e a identidade cultural

 

A identidade cultural é um conjunto de elementos simbólicos e valores que são compartilhados entre indivíduos membros de uma sociedade. E é a partir da cultura compartilhada que criamos o sentimento de pertencimento de um grupo. O conceito de certo e errado são construídos historicamente por meio de interações sociais.

 

Grupos sociais e instituições sociais

Apesar desses conceitos serem interdependentes, grupo social e instituição social são duas realidades distintas. Os grupos sociais se referem a indivíduos com objetivos comuns, envolvidos num processo de interação mais ou menos contínuo. Por outro lado, as instituições sociais se referem a regras e procedimentos dos diversos grupos.

Por exemplo: o pai, a mãe e os filhos formam um grupo primário; as regras e os procedimentos que regulamentam essa relação fazem parte da instituição familiar.

 

A família

A família é um grupo social composta por reunião de pessoas com vínculos consanguíneo e/ou afetiva, o que chamamos de laço  matrimonial ou parental, e é o primeiro corpo social no qual os indivíduos convivem, com forte influência na formação do indivíduo.

 A família tem função de proporcionar a “reprodução”, a companhia, a segurança, a sociabilização e proteção aos seus membros.

 

Os tipos de famílias

A estrutura da família varia em alguns aspectos no tempo e no espaço, podendo ser classificados basicamente em tipos, número e forma de casamentos e papéis familiares:

Quanto ao número e à forma de casamento temos:

  • Casamento monogâmico – é a união de um homem ou de uma mulher com um único cônjuge. No Brasil, o casamento civil só pode ser monogâmico,  novo casamento  só após o término do casamento anterior;
  • Casamento poligâmico – que é a união de um homem ou uma mulher com mais de um cônjuge. Podendo ser também classificado em:

  1. Poliginia: casamento de um homem com várias mulheres.  Encontrada em muitas regiões da África Subsaariana e entre os povos muçulmanos (onde é expressamente permitida no Alcorão);
  2. Poliandria: casamento de uma mulher com dois ou mais homens. São poucas as sociedades que adotam a poliandria. As mais conhecidas são as do Tibete e a da Índia (bem como do Butão, do Sri Lanka e algumas sociedades esquimós.).

No mundo ocidental, a poligamia é ilegal, embora os meios de comunicação e a literatura vez ou outra nos relatem casos de pessoas que vivem conjugalmente com mais de um marido ou mais de uma esposa.

 

Quanto a forma de casamento:

  • Endogamia: é o casamento permitido apenas com alguém do mesmo grupo social. Era comum nas sociedades primitivas e ainda é praticado no sistema de castas da Índia.
  • Exogamia: é o casamento com alguém de fora do grupo social.

 

Quanto ao tipo de família:

  • Família Conjugal ou Nuclear: é aquela formada pelo marido, mulher  e filhos.
  • Família  consanguínea ou extensa: é aquela que abrange além do casal e dos filhos,  outros parentes, tais  como avós, primos, sobrinhos, genro, nora e netos;
  • Família monoparental: quando os filhos passam a viver com apenas um dos pais;
  • Famílias homoafetivas: quando formadas pelos filhos e dois pais ou duas mães. Há países que legalizaram a união entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil a união entre pessoas do mesmo sexo ainda não está totalmente oficializada, mas já é tida pelos magistrados como união estável;
  • Família Tradicional – quando a figura paterna tem o controle total sobre os demais membros. Era muito comum esse tipo no passado e era denominada como família patriarcal;
  • Família Moderna – são formas variação de agregados familiares. Atualmente, é comum a existência famílias de novos arranjos familiares.
  •  

Quanto aos papéis familiares:

  • Sexual e reprodutiva: uma das importantes funções da família é a de garantir a satisfação dos impulsos sexuais, promovendo, com isso, a perpetuação da espécie humana;
  • Função econômica:  é função da família assegurar os meios de subsistência e o bem-estar de seus membros;
  • Função educacional:  a família é a principal responsável pela socialização da criança, ou seja, transmitir a ela os valores e padrões culturais de sua sociedade.

 

Fonte

Material elaborado pela Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco

domingo, 16 de agosto de 2020

Instituições Sociais

  

Juliana Bezerra*

As Instituições Sociais são instrumentos reguladores e normativos das ações humanas, as quais reúnem um conjunto de regras e procedimentos reconhecidos pela sociedade.

Elas possuem uma relação de interdependência, ou seja, não atuam de maneira isolada, e surgem para suprir diversas necessidades humanas.

Desempenham um papel fundamental no funcionamento da sociedade e da democracia, o que decorre por meio de seu poder normativo e coercitivo.

Assim, determinam as regras e procedimentos dos grupos de acordo com padrões, papéis, valores, comportamentos e relações entre membros da mesma cultura.

As instituições sociais fazem parte da estrutura social e designam meios sociais duradouros e estáveis. Nelas são desenvolvidas diversas relações em função da interação entre os grupos sociais.

Além de participar da organização da sociedade, ela pode atuar como controlador social. 

Tipos de Instituição

Segundo a função e o espaço social que se desenvolvem, as instituições são classificadas em:

  • Instituições Espontâneas: surgem espontaneamente a partir das relações estabelecidas entre os agentes sociais, por exemplo, a família.
  • Instituições Criadas: o nome já indica que foram criadas para regular e organizar a sociedade e não surgiram espontaneamente. São elas, os bancos, as igrejas, etc.
  • Instituições Reguladoras: regula diversos aspectos da sociedade, por exemplo as instituições educativas e religiosas.
  • Instituições Operacionais: opera sobre diversos aspectos da sociedade, por exemplo, o departamento de finanças.

 

Exemplos de Instituições Sociais

As principais instituições sociais são:

  • Instituições Familiares: primeira instituição da qual fazemos parte e que possui como funções principais: reprodução, econômica e educacional. Segundo sua estrutura, ela pode ser monogâmica (formada por um cônjuge), poligâmica (formada por mais cônjuges), ou ainda com estrutura de poliandria (mulher casada com mais de dois homens) e poliginia (homens casados com mais de uma mulher).
  • Instituições de Ensino: instituições empenhadas em disseminar o conhecimento, por exemplo, as escolas e as universidades. Tal qual a família, trata-se de uma instituição social que passamos grande parte da vida.
  • Instituições Religiosas: criadas para preencher as lacunas metafísicas da vida social, sendo baseada em dogmas, crenças e tradições, por exemplo, as igrejas, templos.
  • Instituições Econômicas: regula a vida econômica dos agentes sociais, por exemplo, os bancos e as casas de crédito.
  • Instituições Políticas: como principais instituições políticas temos o Estado (e os poderes legislativo, executivo e judiciário), a Nação (o que reúne as pessoas que compartilham costumes, tradições, valores) e o Governo (monarquia e república).
  • Instituições de Lazer: reúne uma variedade de instituições que possuem a função de entreter os seres sociais, por exemplo, os casinos e as festas de carnaval.

 

Autor(a)

*Juliana Bezerra é Professora de História

 

Fonte

https://www.todamateria.com.br/instituicoes-sociais/

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Sociedade civil e democracia

 

Caro  aluno,  nessa  aula  vamos  falar  de  dois  conceitos  que  estão  sempre  em evidência: sociedade civil e democracia. Existe uma relação forte e importante entre a atuação  da  sociedade  civil  e  a  construção  da  democracia  e  é  sobre  isso  que  vamos estudar.

Primeiro vamos definir cada um desses conceitos.

Numa  definição  geral  podemos  dizer  que  Sociedade  Civil é  o  conjunto  de organizações  e  instituições  privadas  e  voluntárias  que  constituem  as  bases  de  uma sociedade em funcionamento, em oposição à estrutura do Estado. 

A origem da palavra democracia define seu significado, demo significa povo e cracia significa governo, portanto democracia é o governo do povo, isto é, democracia é a forma de governo onde o povo tem soberania.

Mas  qual  a  ligação  entre  sociedade  civil  e  a  construção  da  democracia?

Tomando  o  Brasil  como  exemplo,  na  luta  pela  reconstrução  da  democracia  após  o período  de  ditadura  militar  estabelecida  no  país  de  1964  e  1985,  podemos  perceber que  a  mobilização  da  sociedade  civil  foi  decisiva  para  que  essa  reconstrução democrática  se  realizasse.  A  sociedade  civil  representava,  no  período  de  1970-80,  a resistência fundamental ao projeto de poder da ditadura militar.

Os  movimentos  sociais  que  surgiram  naquela  época,  no  âmbito  da  sociedade civil,  poderiam  contribuir  para  transformar  a  lógica  das  relações  de  classe.  As organizações  populares,  organizações  de  base,  a igreja  progressista,  o  novo sindicalismo,  os  partidos  políticos  democráticos,  etc.    todos  faziam  parte  da sociedade civil e se articulavam pela conquista da democracia em clara contraposição ao  Estado  opressor.  Contudo,  além  das  organizações  populares,  a luta  pela democratização  contou  com  forte  apoio  dos  setores  da  burguesia,  que  não  mais conseguiam que seus interesses fossem representados, através do poder ideológico do Estado, como interesses universais, de todas as classes e grupos sociais.

Essa  luta  chegou  ao  seu  momento  mais  marcante  no  período  de  1983-1984  com  a  campanha  das  Diretas  Já,  quando  foram  realizados  grandes  comícios  nas principais  cidades  brasileiras  em  apoio  ao  projeto  de  lei  que  reestabelecia  eleições diretas  para  presidente  da  república.  Abaixo  imagens  do  comício  pelas  Diretas  Já realizado em São Paulo no dia 16 de abril de 1984.

Cabe  aqui  um  esclarecimento  de  como  funcionava  a  eleição  para  presidente durante  o  regime  militar  no  Brasil:  o  presidente  da  república  era  eleito  de  forma indireta pelos deputados e senadores, ou seja, não havia eleição para presidente pelo voto direto do povo nas urnas, o eleitor escolhia seus deputados e senadores entre os candidatos  dos  partidos  e  esses  eleitos  formavam  o  colégio  eleitoral  que  elegia  o presidente da república.

Apesar da não aprovação do projeto de lei que estabelecia a eleição direta, a mobilização  da  sociedade  civil  fez  com  que  nas  eleições  indiretas  para  presidente  o candidato da  oposição, Tancredo  Neves, fosse eleito presidente  da  república.  Apesar de seu falecimento  antes da posse e da nomeação de seu vice José Sarney, o fim do regime  militar  estava  decretado  e  a  democracia  seria  institucionalizada  com  a promulgação da Constituição de 1988, que instaurou o regime democrático de direito, ou  seja,  regido  por  leis,  que  reestabeleceu  eleições  diretas  para  todos  os  cargos executivos e legislativos no Brasil.

Portanto,  pelo  que  vimos  nessa  aula,  a  sociedade  civil  teve  no  Brasil  papel importante  e  determinante  na  reconstrução  democrática  e  sendo  a  democracia  um processo  vivo  e  em  permanente  transformação  é  necessário  que  a  participação  da sociedade  civil  seja  efetiva  e  constante  para  a  garantia  e  aumento  dos  direitos conquistados.


Fonte

Material elaborado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro – SEEDUC/RJ

A construção da identidade nacional

 

O que é ser brasileiro? Para responder a esta pergunta certamente você vai pensar no samba, na feijoada, no carnaval, no futebol, na nossa língua... Estas são manifestações da cultura brasileira que se tornaram símbolos da nossa identidade. Além da criação de símbolos, uma característica importante da identidade nacional é o imaginário social, ou seja, as ideias e imagens que socialmente criamos para dar identidade a um país e seu povo. Assim, um dos exemplos desse imaginário social é o verso da música de Jorge Bem Jor: “Moro num país tropical, abençoado por Deus”. O imaginário social construído foi de uma terra “bonita por natureza”, com muitas riquezas naturais, festas e belezas e, portanto, terra abençoada por Deus. Faz parte do imaginário social a ideia, por exemplo, do brasileiro como povo feliz, afetuoso e hospitaleiro. Esta imagem é inclusive mercadoria vendida aos turistas no exterior.

O Brasil é marcado pela diversidade cultural que se manifesta nas diferentes tradições e costumes regionais, por exemplo. Porém, a construção da identidade nacional baseia-se em traços culturais, crenças e símbolos que oferecem uma identidade comum a um povo diverso.

Essa identidade comum é socialmente produzida e reproduzida por meio da construção de símbolos, imagens e mitos que passam a fazer parte identificação do povo por meio de músicas, livros, meios de comunicação de massa e discursos políticos, por exemplo. Então, a nossa língua, nossos costumes, tradições, enfim, nossa cultura nacional é promovida de forma a desenvolver um sentimento de pertencimento, orgulho e unidade.

Ao falar de identidade nacional também estamos falando da nossa herança cultural portuguesa, indígena e africana. Muitos pensadores brasileiros pesquisaram a fundo nossa herança cultural para conhecer nossa formação social e interpretar o Brasil. Gilberto Freyre, em 1933, escreveu um livro chamado Casa Grande&Senzala cuja principal contribuição para a construção da identidade nacional foi a ideia do Brasil como um país mestiço, produto da mistura das raças. O Brasil como o país da mestiçagem fez e faz parte do imaginário social. As ideias de Gilberto Freyre influenciaram a criação de mais um mito brasileiro: O mito da “democracia racial”. Este mito diz respeito à imagem do Brasil como um país sem preconceitos e separações, ao contrário, seria o país da convivência harmoniosa entre as raças.

Muitos estudiosos criticam o mito da “democracia racial”. Para os críticos, o mito da “democracia racial” contribui para tornar menos evidentes conflitos e desigualdades sociais no Brasil.

 

Fonte

Material elaborado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro – SEEDUC/RJ

 

Diferentes ou desiguais?

 

Olhe para os seus colegas de turma e responda: O que te faz diferente deles? Caso você seja mulher e tenha olhado para um colega do sexo masculino, notou que uma das diferenças é o sexo, ou então viu que a diferença está no modo de usar o cabelo, na forma de falar, no tom da pele, no bairro onde moram... Enfim, todos nós temos marcas que nos diferenciam dos outros. Mas, ser diferente nos faz desiguais? Vamos refletir um pouco sobre como em nossa sociedade estas marcas de diferença se relacionam com o processo de construção de desigualdades.

Quando nas relações sociais estas marcas que nos diferenciam uns dos outros produzem injustiças e desigualdades socialmente construídas, as chamamos de marcadores sociais da diferença. Você deve estar se perguntando: como construímos socialmente esta desigualdade baseada em marcas de diferença como gênero, classe social ou raça? Percebemos que em nossa sociedade em vários momentos há certa dificuldade em conviver com as diferenças. O preconceito é uma manifestação dessa dificuldade, quando, por exemplo, discriminamos o outro por ser diferente de mim. Assim, infelizmente, assistimos frequentemente no noticiário da TV casos de violência contra homessexuais, violência contra a mulher, e manifestações de racismo contra negros ou nordestinos.


Pensemos na cor da pele como um marcador social da diferença. Sabemos que o racismo e o preconceito contra os negros ainda persiste em nossa sociedade. Um dos exemplos da manifestação deste racismo é a desigualdade entre negros e brancos quando, de acordo com pesquisas, vemos que negros (a soma de pretos e pardos) têm menores graus de escolaridade, logo, têm ocupações no mercado de trabalho com salários menores. Este é o resultado de um longo processo sócio-histórico de exclusão social.

Na nossa sociedade também há desigualdades de gêneros que faz com as mulheres tenham salários menores que os homens no mercado de trabalho e sejam vítimas de violência doméstica, por exemplo. A desigualdade de gênero também é resultado de um longo processo sócio-histórico que sempre colocou as mulheres como o “sexo frágil” e como a principal responsável pelo cuidado com a casa e com os filhos. A divisão desigual do trabalho doméstico, por exemplo, dificulta um grande número de mulheres terem ocupações com salários maiores, esta dificuldade ainda é maior para as mulheres negras.



Fonte

Material elaborado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro – SEEDUC/RJ

A nossa identidade

 

 

 

IDENTIDADE

Às vezes nem eu mesmo

Sei quem sou

Às vezes sou

“o meu queridinho”

Às vezes sou

“moleque malcriado”.

Para mim

Tem vezes que eu sou rei,

Herói voador,

Caubói lutador,

Jogador campeão.

Às vezes sou pulga,

Sou mosca também,

Que voa e se esconde

De medo e vergonha.

Às vezes eu sou Hércules,

Sansão vencedor, peito de aço, goleador!

Mas o que importa

O que pensam de mim?

Eu sou quem sou, Eu sou eu, sou assim, sou menino.

 

Pedro Bandeira.

 

No poema acima o poeta reflete sobre quem ele é. Você já se fez esta pergunta: Quem eu sou? A forma como nos percebemos diante do mundo e dos outros formam o que chamamos de identidade. No poema que abre esta aula, percebemos que o sujeito que reflete sobre si percebe-se de diversas formas em diferentes momentos: “o meu queridinho”, “moleque malcriado”, rei, herói, jogador e conclui ser, simplesmente, menino. Nesta aula veremos que a forma como nos vestimos, falamos, sentimos e agimos em diferentes situações dizem sobre nossa identidade, ou seja, dizem sobre quem nós somos.

As decisões cotidianas como o que vestir e como se comportar expressa também quem somos, ou seja, nossa identidade. Mas será que já nascemos com uma identidade? O sociólogo Zygmunt Baumam nos explica que a ideia de quem nós somos não é característica com a qual tenhamos nascido. Esta identidade é adquirida ao longo do tempo principalmente nas relações que estabelecemos com os outros. É por meio da interação com nossos parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho que vamos construindo nossa identidade e nos percebendo como diferente ou semelhante aos outros.

Para a Sociologia, o ambiente social e cultural em que vivemos modela nossa identidade. A escolha de que roupa usar ou como se comportar é sim uma decisão individual, quer dizer, o indivíduo tem um papel fundamental nestas escolhas, porém o grupo nos quais interagimos no nosso cotidiano também influenciam fortemente em quem nós somos, ou seja, na nossa identidade. Assim, nossas decisões cotidianas sofrem influência dos grupos aos quais pertencemos como a família, nosso grupo religioso, do futebol, nosso grupo de amigos.


 Fonte

Material elaborado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro – SEEDUC/RJ

 

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