sexta-feira, 22 de maio de 2020

Ideologia como visão de mundo


Outra abordagem teórica sobre a temática da ideologia é a do filósofo italiano Antonio Gramsci. Seus estudos procuram valorizar o papel da cultura no desenvolvimento da luta de classe.
Para Gramsci, a ideologia pode ser compreendida como visão de mundo, um conjunta de perspectivas produzidas pelas diferentes classes sociais que se materializam nas práticas sociais ao mesma o tempo que são influenciadas por elas, formando um sistema de valores culturais. A ideologia apresenta o modo como cada grupo ou classe social atribui sentido a sua  existência no mundo.

As ideias filosóficas Antonio Gramsci influenciaram Paulo Freire.
Duas consequências importantes derivam dessa visão. A primeira é a valorização da cultura na análise das relações sociais. A segunda é o papel as classes dominantes podem ter no processo de transformação da sociedade.

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Antonio Gramsci

Antonio Gramsci (1891-1937) foi um dos principais intelectual marxista do século XX. É um dos responsáveis por valorizar o papel da cultura na luta de classes. Para Gramsci, a chegada das classes trabalhadoras ao poder deve ser precedida pela mudança de mentalidade de sociedade. Ele atribui à educação e à cultura uma importância significativa na formação da sociedade, pois são espaços para a construção da hegemonia social.


Na visão de Gramsci, as ideologias são expressões das experiências sociais de grupos e classes sociais e estão profundamente vinculadas às práticas culturais de sujeitos coletivos. Sendo assim, as classes dominantes procuram difundir sua forma de explicar o mundo, de modo que possam inspirar o comportamento cultural das classes dominadas e influenciá-lo Quando isso ocorre, estamos diante de uma situação denominada por ele de hegemonia.
Hegemonia
Domínio moral e politico de uma classe social subalterna, com base no sentimento dos subordinados e não na violência.
Em qualquer sociedade, o exercício do poder pressupõe um alternância entre a coesão e consenso. O exercício da hegemonia de uma classe sobre as demais prevê o domínio baseado no consenso e não na força. Isso pode ocorrer pela difusão da ideologia da classe dirigente para todas as esferas da vida, de maneira que se tome a concepção de mundo de todas as classes.






Isso significa que a classe dominante, ao difunda as ideias sobre o papel dos trabalhadores a questão do desemprego, não tem como objetivo produzir uma falsa consciência da realidade, mas Influenciar o modo como esses trabalhadores vão se comportar em seu cotidiano, cobrando mais de si mesmo mais que dos seus empregadores ou do Estado. Portanto a dominação ocorre também no âmbito das relações culturais. No entanto, para Gramsci, as classes dominadas não precisam ser elementos passivos nesse processo. Elas podem construir sua própria visão de mundo e se contrapor à visão dominante. Esse processo se chama contra-hegemonia. Para isso, e necessária a existência de intelectuais vinculados às classes dominadas, que possam ajudar a produzir outros olhares sobre o mesmo fenômeno.

Significa dizer que as organizações sindicais e os grupos políticos ligados aos trabalhadores podem produzir explicações distintas daquelas apresentadas pelas classes dominantes. Ao fazê-lo permitem aos trabalhadores e ao conjunto mais amplo da sociedade rejeitar a ideia dominante e se mobilizar contra as relações vigentes.
As organizações de trabalhadores podem ser uma forma de construção de contra-hegemonia.
O Educador e filosofo pernambucano Paulo Freire (1921-1997) elaborou uma reflexão sobre o papel da ideologia que se vale dos dois aspectos utilizados anteriormente. Para ele, a ideologia dominante e incutida na mente e na prática dos indivíduos por meio do processo educacional. A pedagogia tradicional associa-se ao modo de ver e agir das classes dominantes e falseia a realidade, apresentando o olhar dominante como o único possível.
Em sua obra, o pensador brasileiro discute como a escola reproduz e ensina aos estudantes a ideologia dominante, principalmente quando adota o modelo que ele denomina educação bancária. Freire afirma que o modelo de educação adotada em nossa sociedade produz exclusão, desigualdade e miséria, além de manter a submissão das classes populares às elites dominantes.
Mas a educação pode cumprir outro proposito social, de caráter emancipatório. Como Gramsci, Freire considera que ela também pode ser utilizada como ação contra-hegemônica. Por meio do desenvolvimento de uma ação pedagógica que rejeite os valores pelos quais a ideologia dominante reproduz injustiças sob o discurso do mérito individual, Freire acredita que as classes populares podem produzir um discurso alternativo sobre o mundo, permitindo aos dominados se libertarem do controle ideológico e se tornarem sujeitos ativos na transformação da sociedade.


Ideologia e comportamento social

Para começarmos nossa discussão sobre Ideologia, façamos antes uma pequena reflexão. Imaginemos que nossa escola vem enfrentando uma série de problemas que está prejudicando o desenvolvimento adequado das atividades. Diante disso, funcionários, estudantes e responsáveis convocaram uma assembleia para decidir se vão entrar em greve até que os problemas sejam resolvidos. Quais elementos vão orientar as decisões dos membros da escola? E como você vai tomar sua decisão?

Na vida social, quando enfrentamos um problema, buscamos soluções para ele. No entanto, as soluções encontradas não são neutras, ou seja, não estão isentas de valores. Todos os indivíduos e grupos sociais possuem interesses diretamente relacionados às ideias que construímos ou que são apresentadas no processo de interação social.
Voltando ao exemplo, imaginemos que na assembleia teremos pessoas que são favoráveis à greve, aquelas que são contrarias à paralisação e outras propostas de ação. Cada uma dessas atitudes expõe um olhar especifico sobre o mundo e uma forma de explicação da realidade social. Esse conjunto de ideias e valores que orientam o comportamento e as decisões dos indivíduos e grupos compõe a ideologia.
Nossas ações e percepções do mundo são baseadas em ideologias. Como veremos nos tópicos a seguir a ideologia, assim como a cultura, é um elemento essencial para a compreensão das relações sociais.
Assembleia de professores em greve, no Rio de Janeiro (RJ), em outubro de 2013. As decisões que tomamos em nosso dia a dia são influenciadas pelas ideologias presentes na sociedade.

O conceito de ideologia como falsa consciência
Nas Ciências Sociais, o uso do conceito de ideologia está inicialmente relacionado aos estudos desenvolvidos por Karl Marx. Com base em um debate travado com outros pensadores sobre o desenvolvimento da consciência, Marx, em parceria com Engels, desenvolveu o conceito de ideologia como ilusão ou falsa consciência, em uma série de manuscritos de 1846 que se tornaram conhecidos como A ideologia alemã.

Esferas sociais: infraestrutura e superestrutura

Na visão de Karl Marx, infraestrutura e superestrutura são duas esferas da sociedade que estão relacionadas e se complementam.


Nessa definição, Marx procura se contrapor à visão dominante em seu tempo de que o desenvolvimento da razão humana por si só modificaria o mundo, ou sejas, as ideias seriam o fundamento da realidade. Marx contra-argumenta explicando que a sociedade é compreendida em duas esferas. A Infraestrutura é a esfera da produção material, que produz os bens que satisfazem as necessidades materiais. Já superestrutura representa o conjunto das ideias, das leis, das religiões, da moral e das organizações políticas existentes em uma sociedade. Essas duas esferas se relacionam mutuamente, devendo ser percebidas como um todo estruturado.
Afirmar que as ideias (que pertencem superestrutura) são autônomas consiste num representação falseada das relações sociais, desenvolvida pelas classes dominantes com objetivo de manter as classes trabalhadoras sob seu controle. Significa desconsidera que as relações materiais de produção construídas fundamentam o modo como cada um explica e interpreta o mundo. Por isso, nesse sentido, a ideologia e visto por Marx como uma falsa consciência da realidade.
Como explicar isso? Pensemos no seguinte exemplo. Nas últimas décadas, houve mudanças profundas na forma de organização das empresas em todo o mundo. Com base em propostas para maximizar os ganhos e minimizar os custos de produção, foram implementadas, com a anuência do Estado, diversas estratégias que, entre outras consequências, reduzem o número de trabalhadores empregados e aumentam o desemprego. Na concepção defendida por Marx as mudanças na base material (formas de organiza do da produção) e na postura do Estado (superestrutura) explicam as dificuldades dos trabalhadores de encontrar emprego.
 
Para Marx, a ideologia é o universo simbólico que garante a manutenção da ordem vigente sob o controle das classes dominantes.
 Contudo, ao mesmo tempo, para evitar que se perceba a causa real do aumento do desemprego, as classes dominantes desenvolver uma explicação dessas mudanças segundo a qual as dificuldades para conseguir emprego são atribuídas à falta de qualificação profissional ou de dedicação dos trabalhadores. Essa forma de explicar o desemprego faz com que muitos trabalhadores considerem que estão desempregados por sua própria culpa.
Temos nessa situação, um caso de ideologia como falsa consciência. Cabe ressaltar que a percepção da ideologia como falsa consciência não ocorre por uma relação mecânica, em que a base material determina a superestrutura, mas em razão da utilização das ideias como forma de impedir os trabalhadores de compreender as causas materiais que formam sua realidade.
Em qualquer tempo histórico, a classe que controla o sistema econômico procura desenvolver um conjunto de ideias que legitime seu controle. Produz, assim, representações da realidade que atendem a seus interesses e lhe permitem continuar a exercer seu domínio sobre as demais classes sociais. Dessa forma, as ideologias da classe dominante tendem a se tornar a representação da realidade de todas as classes. No exemplo dado, os trabalhadores passam a crer numa explicação que favorece manutenção das estratégias das classes dominantes, contribuindo para consolidação da forma de organização da economia que foi elaborada pelo detentores dos meios de produção.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Cultura e ideologia

A análise dos fenômenos sociais de nosso cotidiano nos permite perceber a mútua influência entre cultura e ideologia, seja no modo pelo qual os grupos e as classes sociais expressam, em práticas e saberes, sua compreensão e sua trajetória no mundo, seja na forma pela qual essa trajetória é interpretada e valorizada socialmente.


Em cada momento e contexto sócio-histórico, determinados padrões de comportamento são valorizados e outros tratados como secundários ou até rejeitados. Essa condição depende da relação estabelecida entre os diversos conjuntos de indivíduos no processo de interação social. Tal processo é marcado pelos interesses distintos de cada um desses grupos e pela tentativa das classes dominantes de tornar seus modelos referência para as demais classes.
Desse modo, a relação entre as diversas expressões da cultura, os grupos sociais que desenvolvem, seu reconhecimento social e a relação dessas manifestações com o modo de produção capitalista representam como, em nossa sociedade, as relações entre cultura e ideologia são construídas e efetivadas nas relações sociais.
Uma manifestação cultural de origem popular como o funk carioca pode ser caracterizada como expressão social de parcela das classes dominadas da sociedade brasileira. Apesar da origem estadunidense, o funk foi ressignificado pelas populações da periferia das metrópoles brasileiras, que dele se apropriaram e se tornou uma de suas referências na construção da identidade social.
Por causa dessa origem popular, o funk e frequentemente visto como uma manifestação cultural de menor valor. Aqueles que dançam ou cantam suas músicas sofrem preconceito e discriminação, pois praticam uma arte considerada inadequada para os padres dominantes. Muitas vezes, o funk também e associado à criminalidade e até mesmo proibido pelas autoridades policiais.
Entretanto, como gera retorno financeiro significativo, em determinados contextos esse tipo de expressão musical é encampado pelos meios de comunicação de massa e se toma uma mercadoria difundida socialmente. O caso do funk mostra como a cultura (práticas, saberes, valores) está sempre articulada com a ideologia (interpretação, compreensão, difusão de ideias) e com os interesses econômicos dominantes.

As diversas faces da cultura
A cultura é produção humana e o pode hierarquizada, pois não é possível justificar qual seria o padrão cultural a ser tomado como critério de diferenciação. Dizer que determinada prática cultural tem mais valor que outra é afirmar o etnocentrismo. Porém, isso não significa que não possamos relacionar a produção cultural com os grupos que as geraram. Sendo assim, é possível afirmar que a cultura possui diversas faces, que, em grande medida, representam os grupos, sujeitos e contextos dos quais surgiram.

Cultura erudita e cultura popular
Chamamos cultura erudita a prática, os costumes e os saberes produzidos pelas elites ou para elas. Normalmente, tais práticas e saberes estão relacionados a produção cultural das classes dominantes, que procura se distinguir do que é produzido pelas outras classes.
A cultura popular, por sua vez, refere-se às práticas, aos costumes e aos saberes que têm sua origem nas casses dominadas ou populares. Representa o conjunto de manifestações culturais cuja origem remete às experiências cotidianas daqueles que não pertencem as classes dominantes. Se afirmamos que a cultura erudita está ligada à cultura oficial, institucionalizada, devemos entender que a cultura popular expressa o saber não oficial, ou não institucionalizado.
Pelo fato de as práticas culturais efetivarem as visões de mundo das diversas classes sociais, devemos entender que a dinâmica da relação entre cultura erudita e popular também está inserida nesse contexto. Sendo assim, elementos da cultura erudita podem ser utilizados para reforçar a dominação das elites sobre o povo. Ou seja, a difusão de determinada forma de linguagem ou sotaque como padrão nacional pode indicar o estabelecimento do domínio linguístico e cultural de um grupo sobre os demais.
Por outro lado, na tentativa de construir valores contra-hegemônicos, membros de classes dominadas podem se valer de elementos da cultura popular como estratégia para se oporem aos padrões estabelecidos pelas classes dominantes. A valorização do folclore de diversas partes do Brasil constitui uma possibilidade de difusão das experiências e visões de mundo das classes dominadas, ao mesmo tempo que fornece alternativa ao modo de ver e explicar o mundo das classes dominantes.


Com o advento da consolidação do capitalismo, uma nova forma de expressão cultural foi desenvolvida. É a chamada cultura de massa, que se caracteriza por transforma as práticas, os saberes e os costumes das diferentes e classes em mercadoria. Como veremos mais adiante, a cultura de massa é produzida pelos meios de comunicação de massa e pautada por interesses comerciais. Uma de suas consequências é a ofuscação das diferenças entre as culturas popular e erudita, que, ao serem incorporatadas à cultura de massa, perdem sua importância específica no cenário social contemporâneo.
É imporante resaltar que, diferentemente do que afirmam os meios de comunicação, cultura de massa a cultura de massa também possui carater ideológico. Seu atrelamento aos interesses capitalistas a transforma numa expressão crucial da visão de mundo das classes dominantes, ditando comportamentos padronizados e colaborando de maneira central na consolidação dos valores típicos do sistema capitalista.

Indústria cultural e meios de comunicação de massa 

Na análise das relações entre cultura e ideologia, uma temática relevante para as Ciências Sociais é a discussão das relações entre cultura de massa, indústria cultural e meios de comunicação de massa. A proximidade dos conceitos parece indicar uma coi sa só, mas eles constituem elementos distintos na estratégia de consolidação da ideologia capitalista.
Uma questão interessante é que, diferentemente das culturas erudita e popular, que são produzidas respectivamente pelas elites e pelas classes populares, a cultura de massa, ao contrário do que o nome sugere, não é produzida pelas massas, mas para as massas. Ela é gerada no interior da indústria cultural, conjunto de empresas vinculadas a classe dominante que tem como função "produzir" cultura. Mas como produzir industrialmente algo que, como vimos antes, surge das práticas cotidianas dos diferentes grupos e classes sociais?
  
 Quem escreveu sobre isso
O filósofo Theodor Adorno


Theodor Adorno
Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) nasceu a Alemanha e, como professor Universidade de Frankfurt, participou da fundação do Instituto de Pesquisas Sociais (IPS) no início dos anos de 1920. Reunindo nomes como Walter Benjamin, Max Horkheimer e o próprio Adorno, o IPS propôs uma teoria social engajada, de base marxista, sendo responsável pela criação de conceitos como “indústria cultural”. Entre as principais obras de Adorno está A indústria Cultural: o iluminismo como mistificação das masa de 1947.
Isso acontece pela massificação de saberes e padrões de comportamento que interessam as classes dominantes, para que sejam adotados como referência pelas casses dominadas. Por meio de inúmeros produtos (novelas, filmes, livros, shows, programas de TV. revistas etc), há uma difusão de elementos culturais que tem como premissa a consolidação de valores e comportamentos que reforçam a ordem social capitalista. Para isso, esses produtos incentivam o consumo, a padronização dos gostos, em um processo em que prevalece a busca pelo lucro.
Os meios de comunicação de massa (televisão, radio, cinema, jornais etc), que são os principais veículos de divulgação da cultura de massa, exercem papel essencial nesse contexto. São eles os responsáveis por transmitir os ideais das classes dominantes para o conjunto da sociedade, de forma que, no caso de obtenção de sucesso, possam consolidar seu controle hegemónico sobre as classes dominadas.
Por exemplo, quando um programa jornalistico de uma emissora de televisão apresenta uma noticia, o modo como são narrados os fatos ou apresentadas as entrevista não é neutro. Procura-se construir determinado olhar sobre a realidade que representa a visão dos donos do veículo de comunicação em que a informação está sendo divulgada. Diante da rotina cotidiana das classes trabalhadoras, o principal modo de obter informações é por meio da televisão. Por conta disso, a maneira como essas pessoas vão interpretar os acontecimentos será influenciada pela forma como a emissora e seu telejornal apresentarem os fatos. Assim, a televisão é um veículo essencial para a difusão da cultura e da ideologia dominantes.
Essas e outras questões fizeram com que as Ciências Sociais estudassem os vínculos entre cultura e poder. O estudo da cultura sob a perspectiva das relações de poder e dominação (ou controle social) levou Theodor Adorno e Max Horkheimer (1895-1973) a criarem, em meados dos anos 1940, o conceito de industria cultural. Esse conceito foi elaborado para designar o modo como se produz cultura, com base na padronização verificada em qualquer outra produção industrial. Foi com o advento da Revolução Industrial que se pode fabricar em grande escala produtos padronizados, o que serviu de mola para o surgimento de uma sociedade de consumo. Assim, as empresas responsáveis pela produção em massa de bens culturais como mercadona fazem parte da indústria cultural.
De acordo com Adorno, a produção da cultura passou ter como principal finalidade o lucro. Esse processo de mercantilização tornou-se um obstáculo para a arte exercer sua autonomia de criticar a sociedade, já que nesse sistema de produção ela passaria prioritariamente pelos administradores e técnicos responsáveis por tornar os produtos mais rentáveis e aceitos pelos consumidores. Além disso, a necessidade de consumo, caracterizada pela insaciabilidade, está intimamente ligada à difusão da ideologia capitalista pela indústria cultural e pelos meios de comunicação de massa.
A cultura de massa, como produto da indústria cultura se sustenta oferecendo divertimento e produzindo conformismo. A diversão propiciada pelos produtos da indústria cultural muitas vezes mascara os conflitos existentes na sociedade. O conformismo refere-se à aceitação tácita da realidade social, tal como mostrada pelos meios de comunicação, que não lhe fazem nenhuma crítica. O divertimento e o entretenimento reforçam a naturalização das situações de opressão e desigualdade apresentadas nos filmes, nas telenovelas e nas séries televisiva.
Esse processo de naturalização e conformismo produz a alienação das massas. Funciona como mecanismo de controle social, pois neutraliza a possibilidade de o individuo entender e criticar os padrões de relações sociais aos quais está submetido. Assim, a ideologia dominante transmitida por esses produtos culturais permite a reprodução das relações de dominação na sociedade.


Cultura, ideologia e identidade cultural no século XXI
Desde o século XIX, o telégrafo o rádio, o telefone e o cinema vinham alimentando o desejo humano da ubiquidade, que significa a capacidade de estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo. A partir dos anos 1970, a fusão das telecomunicações analógicas com a informática provocou uma transformação no modo como circulam as informações, permitindo uma comunicação multidirecional, desenvolvendo o que o sociólogo espanhol Manuel Castells (1942-) denomina sociedade da informação.
A análise sociológica da sociedade da informação tenta compreender as transformações sofridas pelas sociedades contemporâneas graças ao impacto da revolução digital. A indústria geradora de serviços e de conteúdos digitais passa a ter importância fundamental na formação de comportamentos e hábitos de consumo. No entanto, o modo como essas mudanças ocorrem não pode ser compreendido sem que se perceba que a tecnologia não está apartada da produção social nem da cultura.
As tecnologias, bem como a linguagem e as instituições sociais, são parte da construcões humanas. Elas são produto da sociedade e da cultura, e tanto sua criação quanto o seu uso constituem nossa própria noção de humanidade. Assim, elas não são neutras, e o desenvolvimento tecnológico se orienta por interesses que podem considerar ou não as desigualdades sociais e os abismos digitais.
Na atualidade, as tecnologias digitais, além de representarem o avanço dos meios de comunicação, constituem um campo fecundo para os negócios do capitalismo. Por isso, é importante considerar os contextos culturais e ideológicos nos quais essas tecnologias são utilizadas. Por exemplo, os diversos usos que fazemos das redes sociais on-line são influenciados pelo conjunto de visões de mundo em disputa na sociedade, assim como pelos interesses comerciais e políticos de empresas e governantes.
Uma visão otimista da expansão das tecnologias da informação e desenvolvida pelo filósofo francês Pierre Levy (1956-). Para ele, a propagação das redes sociais on-line pode transformar as relações culturais e politicas, gerando novos modos de exercício da cidadania e da democracia no que ele chama de cibercultura. Nesse aspecto, entende-se que o espaço digital poderá concretizar seu potencial politico ao ser habitado por culturas cada vez mais diversas e participativas. Um exemplo desse uso politico das redes sociais são as manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013, em que essas redes tiveram papel central na organização dos protestos.
Nesse novo contexto social, ganham destaque as tribos urbanas e seu papel na formação das identidades juvenis. Caracterizadas por se constituírem como grupos identitários que questionam os padrões de comportamento e a expressão cultural dominantes, as tribos urbanas surgem nas última décadas do século XX e ganham, na sociedade da informação, diversidade e amplitude geográfica gerando novos e múltiplos sentidos e formas de pertencimento para a juventude. A maneira como os vínculos sociais se difundem pela internet consolida e estabelece uma nova ordem comunicativa, na qual a solidariedade da tribo fortalece e se redefine pelas redes eletrônicas.
Nesse sentido, a logica da identidade, baseada em padrões mais estáveis de individualidade, se desloca para as identificações sucessivas de caráter mais fluido, relacionados ao ritmo e à superposição das tribos, o que remete a uma concepção plural de sujeito. O sociólogo franco-tunisiano Michel Maffesoli (1944-) aponta a formação das tribos urbanas como reação ao processo de homogeneização promovido pela cultura de massa e pela indústria cultural.
Assim, as tribos surgem e vinculam-se com base em interesses contextuais e identificações com elementos específicos da cultura urbana. A partir dai, podemos dizer que, ainda que na sociedade de massas haja uma predominância das influências exercidas pelos meios de comunicação de massa na formação das práticas culturais e das ideologias, existe espaço para que formas alternativas de concepção de mundo e de comportamentos possam se desenvolver e indicar novos caminhos para nossas ações e decisões cotidianas.

domingo, 3 de maio de 2020

Por que estudar Sociologia?


Sociologia: dialogando com você 


Um professor de Sociologia ouviu o seguinte diálogo entre dois estudantes, no primeiro dia de aula do primeiro ano do Ensino Médio:
– João, você viu as matérias desse ano?
– Vi, Fabinho. Algumas são fáceis, já conhecemos: História, Geografia, Literatura,
Artes, Educação Física, Biologia...
– Então, João, vamos nos dar bem, mas tem uma aqui, que é estranha, chamada Sociologia. Você sabe o que é isso?
– Não, mas a Fafá, que está no terceiro ano, disse que isto aí estuda tudo que a gente já sabe.
– Como assim?
– Ela disse que o professor fala de violência, de racismo, de religião, de cultura e outras coisas. Mas, também que a Sociologia estuda o que já vimos em Geografia e em História, como globalização, capitalismo, estado, democracia etc.
– Então, vai ser muito fácil, João! É só a gente dar opiniões sobre as coisas da vida que o professor nos dá dez.
O professor ouviu este diálogo sem querer, pois os estudantes estavam conversando animadamente e não perceberam a sua presença. Nesse dia, ele iria dar aula exatamente na turma de João e Fabinho. E quando entrou na sala de aula, não teve dúvidas: começou um bate-papo com os estudantes sobre “as coisas da vida”. Levantando questões como: será que os desempregados são os próprios culpados por não conseguirem trabalhar?
Todos os jovens têm as mesmas oportunidades para ingressar no mundo do trabalho?
Qual a influência da religiosidade na sociedade? Ou será que, quando pensamos na religião que professamos, entendemos que se trata de um assunto “íntimo” – que faz parte somente de nossa vida privada? E muitas outras perguntas sobre “as coisas da vida” que fizeram com que João e Fabinho pensassem:
– Isso não vai ser fácil, não!!! A gente pensou que era tudo óbvio, mas o professor “tá” nos mostrando que a vida em sociedade precisa ser mais estudada.


E você, surpreende-se logo no início do ano letivo com esta disciplina chamada Sociologia? E se pergunta também: que “matéria” é essa? Para que serve? Afinal, por que devemos estudar essa disciplina?

De fato, acompanhando a curiosidade em torno do que deve significar uma disciplina chamada “Sociologia”, oferecida no Ensino Médio, no primeiro contato com o professor, uma parte dos estudantes, mesmo sem conhecer os temas e a forma como eles serão tratados, já começa a imaginá-la como uma disciplina “estranha” e que “não tem nada a ver”, mesmo avaliando que o professor pareça ser um cara “legal”.
Na verdade, essas dificuldades iniciais têm várias razões. Uma delas é o próprio fato de vivermos numa sociedade altamente tecnologizada, em que se exige tanto ao jovem como aos adultos uma utilidade prática nos conhecimentos adquiridos em todas as disciplinas ministradas no Ensino Médio.
O mundo atual, automatizado, computadorizado, em crise de emprego, exige conhecimentos práticos que nos deem agilidade, que nos ajudem a encontrar mais rápido alguma forma de “ganhar a vida”, sem “perder tempo” em divagações filosóficas ou políticas. Enfim, precisamos de conhecimentos práticos para demonstrar competência no mercado de trabalho.
Ricardo Cassiano/Folhapress/ Hoje, no Brasil, estuda-se
Sociologia nos três anos do Ensino Médio. Na foto, estudantes
do Ensino Médio do Colégio de Aplicação da UERJ, em 2011,
 desenvolvendo um trabalho em equipe.
Ora, quando desenvolvemos esse raciocínio, estamos fazendo, certamente, uma análise social de nosso convívio com outras pessoas e isto é uma forma de reflexão sociológica. Mas vamos logo iniciar essa nossa longa caminhada e tratar de esclarecer o que é a Sociologia, qual seu objeto de estudo e sua importância no Ensino Médio.
Antes de dizermos o que essa nova disciplina significa, já adiantamos que a Sociologia não é o estudo do homem e seu meio; para isso temos a Geografia. Não é o estudo da história dos homens e das sociedades; para isso temos a História propriamente dita. Essas duas disciplinas já são conhecidas pelos estudantes desde o Ensino Fundamental. Mas eis que surge a Sociologia que, de certa forma, utiliza os conhecimentos geográficos e históricos para explicar o comportamento humano em sociedade. Aliás, como veremos, a Geografia e a História se alimentam dos conhecimentos sociológicos para explicar muitos fenômenos pertinentes ao espaço geográfico e aos acontecimentos históricos.

Ciências Sociais e Ciências da Natureza
Assim como a eletricidade é um fenômeno estudado pela ciência chamada Física, como os organismos que possuem células são estudados pela Biologia e os elementos oxigênio e carbono são objetos de estudo da Química, a Sociologia estuda os fenômenos sociais. Ou seja, as relações que os indivíduos estabelecem entre eles próprios, gerando normas de comportamento, atitudes, formação de grupos e elaboração de ideias sobre os mesmos grupos. Sinteticamente, estes são os objetos de estudo da Sociologia.
Émile Durkheim, considerado “pai” da Sociologia acadêmica, afirmou que os fenômenos sociais são sui generis, isto é, o seu entendimento requer uma ciência específica para seu estudo. Sui generis é um termo do latim, que significa, literalmente, “de seu próprio gênero”, ou seja, “único em seu gênero”.
Vejamos um exemplo:

Recentes estudos já comprovaram que o cigarro faz mal à saúde. Todos sabem disso, mas um professor de Química pode nos explicar que os elementos químicos encontrados no cigarro (alcatrão e nicotina) causam uma determinada reação no organismo, o que, ao final de alguns anos, pode provocar câncer de pulmão. Por sua vez, a Biologia vai explicar como esses elementos químicos deterioram os pulmões, cuja função é vital para o corpo humano.
Tudo bem! Mas por que as pessoas que sabem disso continuam fumando?
Bom, para responder a esta pergunta podemos procurar a Psicologia. Talvez afirmando que os fumantes são facilmente influenciados por outros e por alguma publicidade. Esta seria uma forma de explicação sobre o comportamento das pessoas que fumam.
Mas será somente essa a explicação? E por que se produzem maços e maços de cigarro, já que as indústrias sabem que é prejudicial à saúde? Por que o governo, por um lado, apesar das novas regras de propaganda, permite a venda de cigarros e, por outro, proíbe, por exemplo, a venda de maconha?
Certamente a Química não pode dar uma resposta, nem mesmo a Biologia. Aqui, então, entra em cena a Sociologia, que vai explicar os interesses econômicos das grandes multinacionais, cujo objetivo é o lucro – legitimado pela maioria dos governos do mundo e principal fator da existência do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico, social e político que é objeto de estudo da Sociologia.
Enfim, os efeitos químicos do cigarro são objetos sui generis da Química e as consequências orgânicas para os pulmões são objetos sui generis da Biologia. Entretanto, o motivo que leva pessoas, proprietários das fábricas de cigarro, a produzir o cigarro é objeto sui generis de estudo da Sociologia.



Portanto, nesse exemplo, podemos compreender que para se entender o uso do cigarro na sociedade é necessário entendê-lo sob o ponto de vista da Química, da Biologia e da Psicologia – assim como da Sociologia.
Este é somente um exemplo que a Sociologia nos mostra para podermos entender uma questão básica: nossa vida cotidiana é social, ou seja, não estamos sós no mundo. Estabelecemos relações com outros indivíduos e criamos regras de convivência. Algumas já existiam quando nascemos e, provavelmente, existirão depois de nosso falecimento. Concluímos, então, que o indivíduo é um produto social, isto é, o que as pessoas fazem é condicionado, muitas vezes, pela convivência com outros indivíduos e grupos de indivíduos.
Neste sentido, a preocupação central da Sociologia é com o ser humano e suas relações sociais, pois entende-se que os indivíduos não são isolados. Ao contrário, relacionam-se uns com os outros e formam grupos sociais, com regras de comportamento e atitudes diversas na família, na escola, no trabalho, no lazer e em outros espaços de convivência cotidiana.
Se o fumo é prejudicial à saúde, por que é tão difícil para algumas pessoas deixar de fumar?

Mas estas regras de comportamento não são estáticas; pelo contrário, são bastante dinâmicas. Ou seja, na História da humanidade, homens e mulheres modificam seus comportamentos, atitudes e formas de lidar com a realidade. Exemplo disto é a existência do divórcio, recurso de que nossos avós e bisavós não podiam se utilizar quando a união matrimonial não mais satisfazia o casal.
Além disso, existem sociedades que são bem distintas da nossa e que estabelecem regras diferentes de comportamento neste mesmo período histórico em que vivemos atualmente. É o caso se compararmos formas de matrimônio encontradas nas sociedades que seguem os preceitos das religiões muçulmanas (baseadas na poligamia) com aquelas encontradas, por exemplo, no Brasil (baseadas na monogamia).
A Sociologia, além de estudar as relações sociais e os comportamentos dos indivíduos e dos grupos sociais, questiona o porquê da existência de conflitos entre estes grupos, as razões de indivíduos e grupos quando tentam quebrar as regras de funcionamento das sociedades, ou quando criam movimentos para questionar ou legitimar essas mesmas regras. Neste caso, é quando se formam os chamados movimentos sociais como, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST, o Movimento dos Sem-Teto, o Movimento Estudantil etc.
Luiz Fernandes/ A Sociologia nos ajuda a refletir sobre nosso cotidiano. Na foto,
professores reunidos no centro do Rio de Janeiro, em 2008, para iniciarem um
passeio de reconhecimento e estudo sobre a influência da população negra na história
 da cidade.
O sociólogo norte-americano Charles Wright Mills escreveu um livro, muito interessante, chamado A imaginação sociológica, publicado pela primeira vez em 1959. Nesse livro, com o objetivo de explicar a importância da Sociologia, Wright Mills diz que essa ciência representa uma qualidade do espírito humano que nos ajuda a perceber o que está ocorrendo no mundo e como nos situamos neste mundo. Mas como?
Shutterstock/ Charles Wright Mills (1916-1962), o sociólogo que elaborou o termo
“imaginação sociológica”.
Bom, ele dá o exemplo simples do desemprego. Ou seja, quando, em uma cidade de milhares de habitantes, somente um indivíduo está desempregado, isto é um problema pessoal desse indivíduo. E para entender este problema, talvez tenhamos que observar o caráter dessa pessoa, suas habilidades e suas oportunidades. Porém, quando temos 15 milhões de desempregados num país de 50 milhões de trabalhadores (ou seja, pessoas em idade produtiva, que podem exercer uma ou outra profissão), isto já não é um problema de caráter ou de habilidades, mas um problema público, que tem a ver com uma estrutura e com um certo funcionamento da sociedade.
Outro exemplo que ele dá é o caso do divórcio. Num casamento, o homem e a mulher podem ter perturbações pessoais, levando-os ao divórcio. Mas, quando o número de divórcios cresce numa cidade e, de cada 1.000 casais nos primeiros quatro anos de casamento, 250 se separam, isto pode ter alguma relação com a instituição do casamento naquela determinada sociedade. Wright Mills vai dizer que a recorrência de muitos divórcios pode estar relacionada à estrutura da família enquanto instituição.
Enfim, Wright Mills está nos apresentando uma questão simples e que serve para pensar nossas vidas, ou seja, aquilo que experimentamos na vida em vários e específicos ambientes cotidianos, como desemprego, separações etc., muitas vezes é influenciado pelas modificações culturais, econômicas ou outras de caráter mais geral que ocorrem nas sociedades. Por isso é que ele diz que precisamos ter consciência da ideia e da existência de uma estrutura da sociedade, das relações sociais e utilizá-las com sensibilidade, para sermos capazes de identificar as ligações entre as nossas diversas experiências da vida cotidiana. Ter essa consciência e essa capacidade é ter uma imaginação sociológica.
Agora pensando: Quais são os seus problemas cotidianos? Quais são as questões que mais lhe preocupam? É claro que você já pensou nisso alguma vez. Mas, vamos tentar imaginar esses problemas e preocupações sociologicamente. Será que eles têm a ver só com o seu comportamento, com as suas atitudes ou com o seu modo de ser? Será que a Sociologia pode ajudar a pensar sobre seu cotidiano? Então, vamos viajar um pouco no mundo da Sociologia a partir de agora.
Public-domain-image.com/ Manifestação pacífica contra o governo norte--americano: o acesso ao conhecimento e à informação é essencial
para permitir a participação consciente e crítica.
E quando alguns adultos dizem que os jovens não se interessam por essas discussões?
Nós, autores deste livro, já ouvimos em muitas escolas brasileiras algumas afirmações de que os jovens não se interessam pela discussão da Sociologia, pois não veem sentido na “matéria” ou são atraídos por coisas mais interessantes fora da escola. Entendemos, porém, que quando muitos jovens perguntam para que serve a Sociologia, ou quando afirmam que muitas disciplinas são “chatas”, nós precisamos compreender o que está por trás desses comentários.
Para conversarmos a respeito disso, leia, a seguir, um artigo escrito por um psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris e publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 12/12/2002. Ele relata a exigência dos jovens acerca dos estudos:



Vida divertida ou vida interessante?

Uma reportagem do The New York Times descrevia uma nova moda nos colégios americanos, graças à qual o ensino de Ciência está se tornando curiosamente popular.
Nos EUA, os requisitos mínimos para o diploma secundário são bastante livres. Há tempos, para quem não gosta de estudar Química, Física ou Biologia, existem matérias alternativas, como a “Ciência da Terra” ou a Ecologia. Agora é a vez da “Ciência Forense”, idealizadíssima pelos seriados televisivos, pelo cinema e pelos romances policiais. Assim, em vez de estudar leis e fórmulas, os alunos aprendem como determinar a hora da morte, considerando o estado de um cadáver (aulas práticas no necrotério). Familiarizam-se com o microscópio, examinando pelos de possíveis estupradores encontrados no corpo da vítima. Entendem o que são o esperma ou o sangue, investigando uma hipotética cena do crime.
Nas escolas em que os cursos são oferecidos, os jovens são entusiastas. Por que bancar o estraga-prazeres?
O fato é que a reportagem me deixou um mal-estar. Fiquei com a impressão de que a Química, a Física e a Biologia estivessem desistindo de ter qualquer apelo próprio. As formas estabelecidas da diversão (sobretudo a televisão e o cinema) decidiriam como e o que podemos aprender. Filosofia, História e Inglês (Português, no nosso caso) seriam vítimas do mesmo processo.
Lembrei-me de conversas recentes com um jovem estudante universitário que (com grande angústia dele e dos pais) quer largar os estudos, ao menos temporariamente. Ele queixava-se de que todos os cursos seriam chatos. “Como assim, chatos?”, perguntei. “Não são divertidos”, respondeu. Estranhei: Quem disse que um curso deve divertir? (...)
A partir dos anos 90, encontro adolescentes para quem o mundo parece tolerável apenas se puderem distrair-se dele. E os vizinhos são frequentáveis à condição de não se comprometer com eles. O que era alienação nos anos 60 tornou-se escolha de vida nos 90 (...)
(CALLIGARIS, 2002)




Para uma parte dos adolescentes, mas não todos, viver é divertir-se, diferente do que significava para gerações anteriores de jovens. Não queremos dizer com isso que condenamos a diversão, mas que, afinal, há tempo para tudo na vida, como a distração e o lazer; assim como há necessidade de reservar parte do nosso tempo para dar conta das responsabilidades, como o estudo e, depois de formados, o trabalho. Da mesma forma, podemos acrescentar que nossa vida e nossa sociedade também merecem ser pensadas, compreendidas e, por que não, modificadas.
A inspiração e o compromisso da Sociologia são com o entendimento da realidade social. O papel da Sociologia é contribuir para que repensemos a nossa visão de mundo, deixando de lado nossas ingenuidades e preconceitos. Sua tarefa teórica é se contrapor à visão do que predomina no senso comum, que considera que o útil é o que dá prestígio, poder, fama e riqueza – julgando o conceito de utilidade pelos resultados do que a maioria das pessoas considera como “ações práticas” da vida cotidiana.
Não se deixando guiar pelo senso comum, a Sociologia nos instrumentaliza com conhecimentos para nos tornarmos conscientes de nós mesmos e das ações de homens e mulheres que desejam profundamente a liberdade e a felicidade.

Vamos tirar algumas dúvidas?
O senso comum e a Sociologia
Até aqui nos preocupamos em argumentar sobre a necessidade de estudar Sociologia, pensar nosso mundo sociologicamente e sua utilidade na vida de milhões de jovens. Agora queremos ressaltar uma discussão importante neste campo de conhecimento e estudo: a diferença entre senso comum e Sociologia.
Um professor de Sociologia define senso comum como:

(...) falsas certezas e convicções equivocadas sem a base de um conhecimento racional ou de uma adequada compreensão, sendo ditas pelas pessoas a todo instante sobre as mais diversas coisas. A característica principal é a de que o senso comum baseia-se no que está aparente, na aparência das coisas, como as coisas parecem ser. Por exemplo: o Sol é menor do que a Terra e é ele que gira ao redor dela. Tendo o seu ponto de referência a própria Terra e da maneira que é realizada esta observação, o que pode parecer é que aquela seja uma afirmativa correta. Porém, só parece, pois a Astronomia, com seus cálculos matemáticos e suas considerações físicas verifica na realidade que o Sol é muitas vezes maior que a Terra, e desde Copérnico confirma-se na realidade que é a Terra que se move em torno do Sol. Da mesma forma que este simples exemplo, a Sociologia recorrentemente defronta-se com o senso comum das pessoas, desdobrando-se em imobilidades, discriminações e preconceitos.
(GIGLIO, 2000, p. 3)


O senso comum se caracteriza por opiniões pessoais, generalizantes. Ou seja, julgam-se coisas ou fatos específicos como se fossem coisas ou fatos universais. Enfim, falsas certezas sem fundamentação científica, como por exemplo, “todo bandido é favelado”, “todo político é corrupto”, “o povo brasileiro é preguiçoso” etc.
Mas o que é uma atitude científica em Sociologia? É a atitude de, a partir da constatação de um problema social, observar os fatos e a realidade dos indivíduos e grupos, suas relações, formular uma hipótese de explicação, pesquisar e estudar com maior profundidade o assunto e, ao final, pronunciar leis ou tendências de que um fato possa ocorrer em razão de determinados motivos.
Vamos descrever um exemplo:
Temos um problema social que se chama desemprego (é “social” porque sua origem se relaciona com a forma de organização da sociedade, atingindo vários indivíduos). A partir dessa constatação, poderíamos formular a hipótese de que a política econômica de um governo promove o desemprego. Em seguida, passamos a observar a realidade com dados estatísticos em mãos, pesquisas com desempregados para ver os motivos que levaram ao desemprego e etc. Ao final, retornamos à nossa hipótese e podemos verificar se determinadas decisões políticas governamentais tendem a provocar o desemprego em massa num país.
A mesma atitude pode ser tomada para se pensar sobre as possíveis causas da violência. Ao contrário do senso comum, não devemos partir para generalizações ao primeiro contato com um fenômeno social. É necessário investigar as relações entre os fatos e acontecimentos e também suas raízes históricas, como, por exemplo, a questão do racismo na sociedade brasileira. Certamente, este fenômeno social tem fortes raízes na escravidão, mas principalmente nas relações que o homem branco europeu estabeleceu com os povos africanos e indígenas a partir do século XV.
Portanto, posteriormente, trabalharemos com várias teorias sociológicas, conceitos e temas que nos ajudem na nossa imaginação sociológica. Ou seja, vamos partir do senso comum sobre como são entendidos os fenômenos sociais, sobre as relações que existem entre os indivíduos e problematizar esse senso comum.
E aquilo que pode nos parecer “natural” nas relações sociais pode ser “desnaturalizado”, deixando de ser visto como natural e até mesmo imutável, para ser compreendido como é, algo social; ou, como nos diz Wright Mills (1975), para compreender nosso mundo cotidiano, vamos olhar além dele.
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