domingo, 12 de julho de 2020

Evolucionismo e Diferenças

Um fato que marcou a História: o encontro, a partir do século XVI, entre os europeus e as sociedades das Américas, da África e da Ásia, que os europeus até então desconheciam.


Por que escolhemos esse momento? Porque o contato entre essas civilizações possibilitou a construção do sistema social que predomina no mundo atual. Muito mais tarde, no século XIX, o próprio nascimento das Ciências Sociais teve origem na reflexão sobre o encontro entre diferentes culturas e suas consequências.

Inicialmente, vamos tomar como base os modelos que os europeus utilizaram para pensar os nativos daqueles lugares que consideravam “distantes”. A partir dessa visão de mundo, vamos refletir sobre as diferenças — sociais, culturais, étnicas, políticas, entre outras —, um tema fundamental para entender as sociedades de um ponto de vista antropológico.

 

A construção do pensamento antropológico

O avanço colonialista europeu sobre as Américas, grande parte da África, Ásia e Oceania, empreendido a partir do século XVI, não resultou apenas em dominações. Esses encontros geraram relatos de viagem, narrativas descritivas, investigações e todo tipo de documentos históricos sobre as populações nativas até então desconhecidas pelos dominadores. Essas informações foram produzidas desde o começo das explorações europeias, mas só no século XIX, com o avanço do imperialismo europeu, foram sistematizadas por meio de estudos científicos.

 

Colonialismo

Sistema ou orientação política de que uma nação lança mão para manter sob seu domínio os destinos de outra, procurando submetê-la nos setores econômico, político e cultural.

  

Imperialismo

Política de expansão e domínio territorial e/ou econômico de uma nação sobre outras.

 

Essa documentação sobre populações nativas diversas, somada ao interesse das sociedades colonialistas em ampliar suas formas de dominação, gerou a produção de um conhecimento que hoje chamamos de antropológico. A busca desse conhecimento revela a necessidade de um novo olhar sobre aquelas populações a fim de conhecê-las melhor. E conhecê-las melhor para quê? A resposta a essa questão tem dois lados: um prático e um científico.

De um lado, administradores coloniais, missionários religiosos e comerciantes (agentes das conquistas realizadas entre os séculos XVI e XIX) tinham interesse prático em conhecer melhor os “primitivos”. Para os administradores coloniais, isso ajudava a dominá-los; para os missionários, ajudava a convertê-los; e para os comerciantes, ajudava a produzir riquezas em benefício próprio a partir do encontro com os “selvagens”.

 

 

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO? 

Você consegue imaginar como é possível lucrar com o conhecimento sobre populações nativas? Uma forma muito comum de produzir riqueza a partir do encontro é simplesmente obrigar os nativos a trabalhar para o colonizador. A avidez dos colonizadores espanhóis na América produziu o extermínio de milhares de indígenas, que, forçados a trabalhar em minas de prata, não tinham mais como se dedicar a lavouras, o que gerou fome e a morte de milhares de pessoas.

 

Por outro lado, os cientistas que passaram a estudar essas populações a partir do século XIX pretendiam entender a história da humanidade. Para eles, conhecer as sociedades que chamavam de primitivas funcionava como um laboratório: quando olhavam para o presente daquelas populações, acreditavam estar desvendando o passado da humanidade.

Os cientistas tentaram sistematizar o conhecimento das populações ditas selvagens em narrativas que podem ser consideradas histórias de evolução: imagine uma escada na qual as sociedades são organizadas da “mais simples” para a “mais complexa”. Aqueles intelectuais olhavam para os dados coletados pela empreitada colonial, determinavam quais sociedades consideravam mais simples e quais seriam mais complexas e as distribuíam em uma escada evolutiva. A ilustração da página seguinte mostra uma dessas narrativas de evolução, criada pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan (1818-1881), que divide a história da humanidade em três etapas: selvageria, barbárie e civilização.

Morgan foi um dos principais teóricos desse momento do conhecimento antropológico. Entre outros intelectuais fundamentais, podemos citar o inglês Edward B. Tylor (1832-1917) e o escocês James G. Frazer (1854-1941). Cada um narrou à sua maneira a história de evolução, sem chegar a um acordo sobre a posição de cada sociedade nos degraus da escada evolutiva e sobre as linhas evolutivas da humanidade.

Entretanto, apesar das discordâncias, todos esses autores partiam da ideia de progresso. Ou seja, pressupunham que as diferentes sociedades sempre avançavam em direção à civilização.

 

A evolução da humanidade segundo L. H. Morgan (século XIX)

 

Assim falou... James Frazer 

[...] um selvagem está para um homem civilizado assim como uma criança está para um adulto; e, exatamente como o crescimento gradual da inteligência de uma criança corresponde ao crescimento gradual da inteligência da espécie […], assim também um estudo da sociedade selvagem em vários estágios de evolução permite-nos seguir, aproximadamente — embora, é claro, não exatamente —, o caminho que os ancestrais das raças mais elevadas devem ter trilhado em seu progresso ascendente, através da barbárie até a civilização. Em suma, a selvageria é a condição primitiva da humanidade, e, se quisermos entender o que era o homem primitivo, temos de saber o que é o homem selvagem hoje.

 

 

 

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO? 

Um estudo das sociedades orientado pela noção de progresso implica diversas conclusões hoje repudiadas pelas Ciências Sociais:

·  Se toda sociedade evolui da mesma forma, a diferença entre umas e outras poderia ser explicada pela “dedicação à evolução”. Algumas teriam andado mais rápido, outras teriam preferido, “preguiçosamente”, deixar a evolução seguir mais lentamente.

·  Se todas as sociedades seguiram os mesmos passos, olhar para qualquer sociedade diferente da ocidental seria olhar para o passado da humanidade. As sociedades ditas selvagens apareceriam como autênticos “museus vivos”.

·  Se todas as sociedades seguirão pelos mesmos caminhos, caberia às “mais avançadas” adiantar o processo das “mais atrasadas”. Isso faz com que o colonialismo seja visto como uma ação de solidariedade aos povos “atrasados”, que poderiam atingir estágios mais adiantados justamente por meio da dominação ocidental.

 

Aqui surge uma questão que deve nos acompanhar por todo o livro: para que serve o conhecimento produzido pelas Ciências Sociais? Entre muitas respostas possíveis, vamos começar pela mais dura: para dominar. Veremos, por outro lado, que esse mesmo conhecimento também gerou, por exemplo, defensores dos direitos de populações em risco, como as indígenas.

O evolucionismo social (nome dado às teorias que se apoiam em narrativas de evolução) funcionava ao mesmo tempo como explicação da evolução da humanidade e como justificativa para a dominação exercida pelos europeus. Para muitos, as teorias do evolucionismo social não passam de ironia, como se o dominador dissesse ao dominado: “Não é bem uma dominação; estamos apenas civilizando, e isso é um favor”.

 

 PARA SABER MAIS

 

Evolucionismo × darwinismo social

O evolucionismo social é comumente associado ao evolucionismo biológico, proposto por Charles Darwin (1809-1882), que defendia uma evolução pela melhor adaptação ao ambiente. Os evolucionistas sociais defendiam a ideia de progresso, inspirados pelo filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903). Um conjunto de teorias elaboradas na Inglaterra e nos Estados Unidos na década de 1870 se tornou conhecido como darwinismo social. Essas teorias defendiam a existência de diferenças fundamentais nos grupos humanos, que se expressavam em raças distintas.

A noção de raça foi introduzida no século XIX pelo naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832), que dividiu a humanidade em três raças: caucasiana, etíope e mongólica (branca, negra e amarela). Outros autores teceram variações dessa teoria, sempre relacionando heranças fisiológicas a distintas capacidades intelectuais e qualidades morais. A miscigenação deveria ser evitada, já que a mistura traria decadência racial e social. Sempre privilegiando a “raça” branca, essas teorias serviram de justificativa para a dominação colonial, da mesma forma que o evolucionismo social.

O darwinismo social também deu origem à eugenia, teoria que busca produzir uma seleção nos grupos humanos, com base em leis genéticas. Essa teoria defende a ideia de separar as raças e até mesmo eliminar aquelas consideradas inferiores. Com base nesses princípios, políticas eugênicas foram instauradas em vários países, incentivando a separação entre as raças, proibindo casamentos inter-raciais e incitando todo tipo de exclusão racial.

 

 

Os adeptos das teorias evolucionistas estavam convictos de que a escalada para o progresso só poderia se dar em um sentido: os europeus eram os civilizados e todos os demais eram atrasados.

Essa teoria depende da ideia de progresso, mas o que define o progresso? Do ponto de vista dos intelectuais do século XIX, um dos critérios seria o progresso tecnológico. Embora pareça justo, esse critério é tão arbitrário como qualquer outro. Foi adotado porque parecia evidente, mas veremos neste livro que nada é “evidente”, sempre podemos questionar supostas evidências.

 

 

VOCÊ JÁ PENSOU NISTO? 

O progresso tecnológico é central nas teorias evolutivas justamente porque favorece quem as construiu: os intelectuais europeus e norte-americanos. Mas como seria essa escala se fossem adotados outros critérios? Vamos pensar, por exemplo, em uma escala organizada pela ideia de “sustentabilidade”. Nessa escala, sociedade evoluída seria aquela que se organiza de modo a continuar existindo ao longo do tempo e cujo modo de vida não esgota os recursos naturais necessários para a sobrevivência de gerações futuras. Segundo esse critério, a sociedade ocidental capitalista não ficaria no topo da escada e sociedades consideradas atrasadas” passariam a ser avançadas.

 

 


Capa da primeira edição brasileira,
Editora Record, 1970.


Nesta imagem da história em quadrinhos Tintim na África, do cartunista belga Hergé (1907-1983),
vemos o final da narrativa, quando Tintim parte do país africano após “ensinar” muito aos congoleses.
Observe que há até um totem ou altar erigido a Tintim e ao seu cão, Milu.
A figura é representativa do evolucionismo social, pois coloca no centro aquele que criou essa teoria: o europeu branco.

O encontro com populações não europeias resultou tanto em uma teoria sobre a história da humanidade como em justificativa para a dominação pelos europeus. O que sustenta essa teoria e essa justificativa é uma ideia de progresso que favorece as sociedades ocidentais, por colocar no ápice da evolução aquilo que elas próprias consideram mais evoluído. Essa forma de pensar tem um nome: etnocentrismo.

 

Bibliografia

Sociologia hoje : volume único : ensino médio /Igor José de Renó Machado… [et al.]. – 1. ed. – São Paulo : Ática, 2013.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

O capitalismo comercial

A partir do século XV, o comércio trouxe transformações significativas à organização das atividades econômicas, com repercussão na organização espacial do planeta.


Ao mesmo tempo, a expansão comercial influenciou o desenvolvimento tecnológico. A invenção da caravela, da bússola e do astrolábio náutico e o desenvolvimento da cartografia criaram novas possibilidades de navegação a longa distância. Também É Dessa época a invenção da imprensa (1456), que possibilitou novas formas de intercâmbio, a difusão de saberes e, consequentemente, a divulgação das novas invenções para um espaço geográfico cada vez mais amplo.

O uso da pólvora foi fundamental para a integração compulsória dos povos ao sistema político e económico que surgiu no continente europeu - o capitalismo comercial - caracterizado sobretudo pelo acúmulo de riquezas geradas pela atividade comercial pela exploração de terras e povos ultramarinos. Portugal e Espanha, seguidos de Holanda, Inglaterra e França, estabeleceram entrepostos comerciais em todo o mundo. A América colonizada, além de fornecer produtos tropicais - raros e caros - para o continente europeu, contribuiu com o ouro e a prata para a consolidação do capitalismo comercial desses novos países.

 

 CONTEXTO LITERÁRIO

 

Os Lusiadas - Canto I

 

As armas e os barões assinalados

Que da Ocidental praia lusitana.

Por mares nunca dantes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

Em penso e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

Entre gente remota edificaram

Novo Reino que tanto sublimaram;

E também as memorias gloriosas

Daqueles Reis que foram dilatando

A Fé o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando.

E Aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando,

Cantando espalharei por toda parte

Se a tanto me ajudar o engenho e arte. [...]

 

CAMÕES, Luis de 0bra completa Rio de janeiro Aguilar, 19g63 p9

 

 

O mercantilismo foi uma doutrina política e econômica que criou as bases de uma nova geografia europeia e mundial, pois fortaleceu a unificação territorial a partir de um governo centralizado, que caracterizou os Estados nacionais europeus. Tais Estados diversificaram suas possibilidades econômicas e acumularam riquezas com o comércio e o protecionismo de seu mercado interno. Com isso, ampliaram-se as relações espaciais, baseadas na escravização e na comercialização da mão de obra africana e na exploração colonial (implantação de sistemas de produção agrícola e mineral nas terras ocupadas na América). Intensificou-se também o comércio com a Ásia.

Defendendo o fortalecimento do Estado por meio do acúmulo de metais preciosos (metalismo) e do controle governamental da economia, o mercantilismo tinha o objetivo de promover a expansão comercial e ao mesmo tempo proteger o mercado interno (protecionismo). Foi com o mercantilismo que apareceu pela primeira vez o conceito de balança comercial favorável, obtida quando as exportações superam as importações. Do ponto de vista geográfico, essa doutrina pressupõe o desenvolvimento de uma infraestrutura que facilite as atividades comerciais internas e internacionais, como vias de comunicação e portos.

 

O cambista, de Quentin Massys (1465-1530), retrata a época em que as atividades comerciais e financeiras passaram a comandar a vida urbana. A arte renascentista dos séculos XV e XVI caracterizou-se pela representação da realidade, a riqueza de detalhes, o estudo da perspectiva e da luzes valorização da figura humana. Museo de Bellas Artes, Bilbao. 

Muitos capitalistas que haviam acumulado riquezas com a circulação de mercadorias (comércio) investiram também na atividade produtiva. Ao mesmo tempo em que o comércio se expandia em larga escala, ocorria o desenvolvimento da manufatura.

 

Manufatura

Processo de produção caracterizado pela utilização de Ferramentas simples pela divisão de tarefas no qual cada trabalhador executar parte do trabalho Antecede o uso das maquinas mas não era a utilização do processo manufatura em pequenas oficinas como confecções e fabricas de calçados

 

A atividade manufatureira ajustava-se bem ao crescimento do mercado urbano, ocorrido com o renascimento comercial. Na produção manufatureira, o trabalho era dividido em etapas. Os trabalhadores, que não detinham mais a posse dos instrumentos de trabalho, especializar-se na execução de uma determinada etapa do processo. Isso diminui o tempo total gasto na produção da mercadoria, elevando, consequentemente, a produtividade e os lucros do dono da manufatura.

 

Renascimento comercial

Processo que ocorreu na etapa de transição entre idade Media e idade Moderna sendo marcado pelo desenvolvimento do comercio e o enfraquecimento do feudalismo. O termo "renascimento" se deve ao fato de que, durante o periodo feudal o comércio deixar de ser uma atividade importante ou dominante os feudos, do ponto de vista produtivo, eram praticamente autossuficientes.

 

O capitalismo industrial

As transformações socioeconômicas dos séculos XV e XVI promoveram a integração mundial da produção na organização do espaço geográfico, marcado pelo advento do capitalismo comercial.

A acumulação de capital e as novas técnicas, aplicadas à produção de mercado rias e aos meios de transporte, materializaram, no século XVIII, uma nova forma de acumulação de riquezas. Foi o inicio da Revolução Industrial e a consolidação do sistema capitalista. A partir desse período as transformações geográficas aceleraram-se continuamente e atingiram todas as dimensões da vida humana.

O sistema capitalista passou por diversas fases desde suas origens até os dias atuais. Alguns de seus princípios permanecem:

• A propriedade privada dos centros de produção e dos bens pessoais é um direito que pode ser transmitido aos descendentes.

• O trabalho é assalariado, e o valor da remuneração depende da qualificação profissional e da oferta de mão de obra.

• O funcionamento desse sistema depende das diferenças socioeconômicas entre os que são proprietários dos meios de produção e a maioria da população, que depende de sua força de trabalho.

• A divisão por classes socioeconômicas e o poder econômico e político de um grupo social sobre outro

• As atividades econômicas têm como objetivo o lucro, apropriado pelos proprietários ou acionistas e aplicado na ampliação do capital a ser reinvestido na produção.

• É um sistema produtor de mercadorias e serviços destinados ao mercado. O termo mercado refere-se a oferta e procura, tanto de mercadorias quanto de serviços e capitais. O equilíbrio do sistema capitalista depende, em grande parte, de uma oferta de mercadorias ou serviços equivalente à capacidade de consumo.

 

Força de trabalho

Capacidade de um grupo de indivíduos detentores de condições físicas e mentais para gerar renda.

 

A Primeira Revolução Industrial

Uma das mais profundas transformações espaciais já ocorridas deu-se com a introdução da indústria moderna na Inglaterra, que marcou o início do capitalismo industrial. A industrialização não provocou mudanças apenas na forma de produção, mas também reorganizou o espaço geográfico, modificou as relações territoriais, sociais e políticas. As regiões industriais atraíram mão de obra, as cidades ampliaram-se física e demo graficamente e tornaram-se centros econômicos muito importantes.


Com a invenção da máquina a vapor, em 1769, e sua incorporação às fiação e tecelagens, a produção industrial ganhou grande impulso. Os trabalhadores foram concentrados num mesmo local de produção - a fábrica - e consolidou-se a relação de trabalho assalariado. O navio e a locomotiva a vapor revolucionaram os meios de transporte e contribuíram para a expansão das atividades industriais e dos mercados para seus produtos.

O sistema fabril, inaugurado na Inglaterra, ampliou o controle sobre os trabalhadores. Nas fábricas, eles eram obrigados a trabalhar num ritmo definido pelas máquinas. Devido à extensa jornada de trabalho, que chegava a 16 horas diárias, os operários, na maioria das vezes vindos do campo, se amontoavam em habitações precárias, próximas das fábricas, formando bairros miseráveis.

Gustave Doré (1832-83). Dudley Street, Seven Dials, de "London - A Pilgrimage, 1872 Gravura colorida posteriormente A Imagem mostra bairro da periferia de Londres no final do século XIX.

Outra parte da mão de obra disponível foi requisitada para o trabalho nas minas de carvão mineral, a fonte de energia usada na primeira fase da Revolução Industrial. Crianças a partir de cinco anos de idade eram obrigadas a carregar sacos de carvão até a saída das minas. Na época, o trabalho infantil era utilizado com frequência nessa e em outras atividades. A França colocou restrições ao trabalho infantil, embora não abdicasse dele. Em 1841, promulgou uma lei proibindo que crianças menores de 12 anos realizassem a jornada de trabalho completa de 12 horas. No entanto, elas podiam realizar uma jornada "mais branda", de 8 horas.

A industrialização ampliou a divisão do trabalho dentro da unidade de produção (a fábrica) e no interior da sociedade de cada país. Ao mesmo tempo, estabeleceu a Divisão Internacional do Trabalho entre os países industriais e as regiões fornecedoras de produtos agrícolas e minerais.

Com a Revolução Industrial o capitalismo avançou de modo expressivo. As alterações introduzidas no processo produtivo refletiram se na organização da sociedade, nas relações entre regiões distantes e entre o campo e a cidade e na a celerada urbanização.

O capitalismo comercial já havia modificado a estrutura e o papel das cidades e o modo de vida urbano. Na cidade, desenvolveram-se a produção artesanal a manufatureira e estabeleceram-se bancos e casas comerciais, que recebiam e distribuíam boa parte da produção das áreas rurais e das colônias. Com o capitalismo industrial, o papel econômico e politico das cidades tornou-se mais evidente.

Ao mesmo tempo, a Revolução Industrial promoveu uma Revolução Agrícola, com a produção de novos instrumentos para a atividade agrícola, a modificação do sistema de propriedade e a organização do trabalho no campo! As mudanças na agricultura estenderam-se por toda a Europa. Porém, do mesmo modo que ampliaram a produtividade da terra, expulsaram grande quantidade de pessoas das áreas rurais. Essa população dirigiu-se para as áreas urbanas, tornando-se mão de obra abundante e barata para os novos estabelecimentos industriais.

Os que permaneceram no campo passaram a produzir bens para o abastecimento das cidades ou matérias-primas para as indústrias. O trabalho agrário, cada vez mais especializado e menos direcionado à subsistência, obrigava o agricultor a adquirir no mercado os produtos necessários ao consumo.

Outra situação criada pela Revolução Industrial foi a intensificação do intercâmbio comercial. Estradas foram construídas e ampliadas para facilitar o transporte de mercadorias e de passageiros, os cursos de rios navegáveis foram ligados por canais e, a partir do século XIX, um novo meio revolucionou o sistema de transportes: a ferrovia. A invenção da locomotiva a vapor, na Grã-Bretanha, estava associada à necessidade de transportar grandes quantidades de matéria-prima, como, por exemplo, o carvão mineral.

O crescimento da produção industrial na Inglaterra e a necessidade de ampliar o mercado para além das próprias fronteiras deram origem ao liberalismo econômico. Essa teoria considerava nociva a intervenção do Estado na economia e defendia a livre concorrência entre as empresas e os países. Naquele momento, as ideias liberais interessavam principalmente à Inglaterra, que não encontrava concorrente frente a seu nível de desenvolvimento técnico e a sua grande capacidade de transporte, propiciada por sua imensa frota naval. 

A view in Regent's Park in 1831, from The progress of steam, 1828, litografia de Henry Thomas Alken, que ironiza o entusiasmo da população inglesa pela locomotiva a vapor.

A Segunda Revolução Industrial

Durante a Primeira Revolução Industrial, as indústrias foram instaladas próximo às minas de carvão. No final do século XIX, o uso da eletricidade e do petróleo como fontes de energia, a maior extensão das vias de circulação, a velocidade das ferrovias e a evolução e ampliação dos sistemas de transporte possibilitaram a instalação de indústrias em locais mais distantes das fontes de energia e de matéria-prima.

A Segunda Revolução Industrial caracterizou-se por transformações quantitativas e qualitativas. A eletricidade e o petróleo ampliaram a capacidade de produção de energia e acrescentaram novas possibilidades à tecnologia de produção, criando condições para o desenvolvimento de produtos e invenções, como o motor a combustão. Surgiram as grandes siderúrgicas e metalúrgicas e a indústria química e automobilística. A marinha mercante multiplicou sua frota em diversos países europeus, nos Estados Unidos e no Japão. As ferrovias se expandiram por todo o mundo, como meio de transporte e atividade empresarial. A indústria inglesa mantinha, em grande parte, os equipamentos e maquinários tradicionais. Já os novos países que se industrializavam na Europa (como a Alemanha) e em outras regiões do mundo (como os Estados Unidos e o Japão) incorporar as tecnologias que surgiam e instalavam suas indústrias em consonância com as novas infraestruturas de transporte e energia, tornando-se, nesse sentido, mais competitivos.

 

Bibliografia

Território e sociedade no mundo globalizado: geografia: ensino médio, volume 2 / Elian Alabi Lucci, Anselmo Lazaro Branco, Cláudio Mendonça. -1. ed.-São Paulo Saraiva, 2010.

 


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Organização do trabalho no século XX

As crises econômicas, que de tempos em tempos atingem a sociedade capitalista em razão da insuficiência do sistema em dar respostas ao processo de acumulação, fazem com que empresários, gestores e administradores promovam alterações nas formas de produzir e de controlar o trabalho. Foi assim que, durante o século XX, predominou em nossa sociedade, ainda que não de modo uniforme, uma forma específica de produção com controle sobre o trabalho, denominada fordismo.


O fordismo se consolidou como um sistema de produção no contexto da crise de 1929 e da Grande Depressão dos anos 1930, quando o governo norte-americano passou a adotar práticas keynesianas, isto é, a intervir na economia e nas relações de trabalho como forma de saída da crise capitalista. Mas o fordismo não nasceu nessa crise. Então, em que consiste e quais são as suas origens?

 

Práticas keynesianas

Inspiradas nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), que defendia maior regulação do mercado pelo Estado a fim de garantir o pleno emprego para a população.

 

O fordismo consiste em um sistema de produção em massa cuja palavra-chave é padronização (tanto das tarefas quanto do produto). Esse sistema, que articula inovações técnicas e organizacionais visando a otimização da produção e o consumo em massa, foi empregado pelo industrial Henry Ford (1863-1947) em sua fábrica de automóveis, sediada em Detroit (Estados Unidos), nas primeiras décadas do século XX. Por meio da criação de linhas de montagem, nas quais os operários ficavam parados enquanto as peças se movimentavam em esteiras rolantes, cada trabalhador executava apenas uma etapa do processo de trabalho.

Para aumentar a produtividade, o fordismo associou-se ao taylorismo, modo extremamente racional de uso do tempo e de movimentos do trabalhador no chão da fábrica. O taylorismo foi desenvolvido pelo engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor (1865-1915), também com vistas a otimizar a produção.

 

Otimização

Forma de obter melhores condições para algo. No contexto de produção, significa produzir mais em menos tempo ou com menos recursos.

 

Trabalhadores na linha de produção de automóveis em Detroit, Estados Unidos, 1911./ FONTE: Akg-Images/Latinstock 

Os trabalhadores são treinados para a alta produtividade mediante o uso eficiente do tempo, a divisão de atividades, a separação entre concepção e execução das tarefas e a economia de movimentos exercidos em cada função. Essa racionalização científica do tempo e dos movimentos leva à especialização e à intensificação do ritmo de trabalho, visando ao controle dele.

Associados, o fordismo e o taylorismo constituíram um eficiente sistema de produção que se espalhou também para outros setores econômicos, além da indústria. O consagrado filme Tempos modernos, de Charles Chaplin, aborda de forma irônica o trabalho de tipo fordista-taylorista e suas consequências para os indivíduos.

Depois de duas grandes guerras e em meio à corrida desenvolvimentista entre as potências mundiais, nos anos 1960 e 1970, ocorreram importantes mudanças no âmbito do trabalho. Para adaptarem-se às oscilações do mercado, as empresas implantaram um conjunto de inovações tecnológicas (derivadas da informática e da robótica) e organizacionais, que alteraram a maneira de gerir o trabalho. Mais uma vez, soluções produtivas surgiram como resposta a uma crise capitalista, a chamada "crise do petróleo". Dessa vez, o modelo veio do Japão.

 

A tirinha, de 1996, de autoria de Bob Thaves, satiriza a alienação a que o trabalhador está sujeito no modelo fordista./Bob Thaves © 1996 Thaves/Dist. by Universal Uclick for UFS 

O Japão, que tinha sido arrasado na Segunda Guerra Mundial, estava experimentando uma nova forma de organização da produção, mais flexível, criada por Taiichi Ohno e introduzida na fábrica de veículos Toyota, na década de 1950, que se espalhou para outros países do mundo. Nesse modelo de produção, denominado toyotismo (ou modelo japonês), a produção é comandada pela demanda do mercado e não trabalha com grandes estoques de insumos e de mercadorias.

 

Insumo

Termo empregado na economia para se referir aos elementos necessários para produzir mercadorias ou serviços, tais como as matérias-primas, os equipamentos, o capital, etc.

 

A introdução de mais máquinas, equipamentos, programas, processos e novas formas de administrar os empregados levou à diminuição geral dos custos, a um maior controle sobre os trabalhadores e à redução de mão de obra utilizada. A esse modo de produzir, altamente flexível e com economia de recursos, convencionou-se chamar produção enxuta. O processo de trabalho tornou-se mais flexível nas empresas que adotaram o toyotismo, no seguinte sentido: a mão de obra é multifuncional, ou seja, o trabalhador deve se adequar a diferentes funções; há controle visual da produção, com a supervisão de todas as etapas, buscando a qualidade do produto final; e a produção é estabelecida segundo a demanda e a necessidade de produtos personalizados.

Para muitos autores o modelo toyotista substituiu o fordismo. No entanto, diversas pesquisas realizadas pelos sociólogos do trabalho demonstraram que o fordismo não desapareceu. A racionalização da produção, com a adoção de alguns princípios característicos do toyotismo, em muitos casos configurou sistemas de produção híbridos, fordistas-toyotistas. O fato é que, com essas e outras mudanças no âmbito da política, inaugurou-se um tempo de grande flexibilidade não apenas na produção, mas também nas relações sociais e do trabalho, nas bases econômicas e geográficas, como atesta a dinâmica produtiva das empresas transnacionais.

 

Linha de montagem de empresa automobilística chinesa instalada em Jacareí (SP).

 

 

A Terceira Revolução Industrial (ou Revolução Tecnológica), ocorrida a partir dos anos 1970, automatizou o trabalho, introduziu a informática e a robótica, desenvolvendo a capacidade de acumular, armazenar, processar e distribuir informações.

 

A maneira de produzir transitou da rigidez das formas de organização taylorista-fordistas, nas quais cada pessoa detinha um posto de trabalho e uma máquina, para a flexibilização na produção, no trabalho e nos mercados. Isso não significa que a produção fordista tenha desaparecido, mas que essas formas de produção podem até coexistir em uma mesma empresa, quando se combinam elementos do fordismo, do taylorismo e de sistemas flexíveis de produção.

Essa reorganização da produção, baseada na inovação de equipamentos, na flexibilidade de tempo e de mão de obra, na redução do custo e no controle da qualidade, é denominada reestruturação produtiva. Desenvolvida nos países capitalistas centrais nas décadas de 1970 e 1980, ela chegou ao Brasil com intensidade nos anos 1990, período marcado por ajustes nas relações trabalhistas. Nesse contexto, é importante conhecer as alterações que acontecem nas relações de trabalho, uma vez que essas se compõem de um conjunto de leis e normas sociais reguladoras da compra e venda da força de trabalho e também dos conflitos resultantes.

 O geógrafo britânico David Harvey (1935-) alerta que, nas condições da produção capitalista, a socialização do trabalhador envolve o controle social amplo das suas capacidades físicas e mentais. O maior controle do trabalho contribui para a acumulação do capital, e ele acontece também fora do local de trabalho, estimulando a familiarização do trabalhador com os objetivos da empresa e convencendo-o a participar e a cooperar com o processo produtivo, estratégias típicas das novas formas de gestão do trabalho. Um exemplo desse envolvimento integral com o trabalho são aqueles trabalhadores que, por meio de celulares e computadores, permanecem à disposição da empresa além do horário previsto em contrato.

 A tirinha de Laerte, de 2012, ironiza a maneira como o ritmo intenso de trabalho inibe a capacidade do trabalhador de aproveitar seu tempo livre. / Laerte/Acervo do artista 

Presente na indústria e nos serviços, a produção flexível acontece por encomenda, utiliza técnicas que produzem mais em menos tempo e com menor número de trabalhadores. Ela se diferencia tipicamente da produção fordista, que é baseada na produção em massa, com altos níveis de estoque e rígido controle sobre o trabalhador. O uso de máquinas complexas na agricultura, por exemplo, permitiu o cultivo de extensas áreas rurais, que favoreceu a competição na venda mundial de grãos, mas reduziu drasticamente o emprego de trabalhadores. Algumas dessas mudanças podem ser vistas no quadro da próxima página, no qual são comparadas as principais características dos dois sistemas de produção em países de capitalismo avançado, levando em conta o mercado, a produção, a organização do trabalho, as inovações técnicas e organizacionais e a estruturação das fábricas. 

O sistema de produção taylorista-fordista e o sistema de produção flexível 

Aspectos considerados

Sistema de produção taylorista-fordista (predominante no período de 1930 a 1970)

Sistema de produção flexível

(em expansão desde a década de 1970)

Mercado

Objetiva o consumo de massa.

Objetiva atingir nichos específicos de mercado.

Produção

• Produção em massa.

• Rigidez e controle das etapas.

• Integração vertical, ou seja, todas as partes do produto são fabricadas na mesma empresa.

• Utilização de mão de obra intensiva.

• Produção especializada.

• Produção flexível em relação à organização e ao trabalho.

• Terceirização: transferência de parte da produção para outras empresas, constituindo redes integradas de empresas.

• Redução dos postos de trabalho.

Organização do trabalho

• Tarefas mecânicas, fixas e bem definidas.

• Hierarquização de cargos e salários.

• Fixação do trabalhador no posto de trabalho, exercendo uma única função.

• Disciplinarização e controle do trabalhador.

• Contrato de trabalho formal por tempo indeterminado.

• Flexibilidade e multifuncionalidade.

• Redução das hierarquias internas.

• Trabalho em equipe, rodízio de tarefas, funções genéricas.

• Intensificação do controle sobre o trabalhador por meio de equipamentos e autocontrole.

• Diversificação das formas de contrato de trabalho (autônomo, por produção, por tempo determinado, etc.).

Inovações técnicas e organizacionais

• Administração científica e centralizada da produção.

• Linhas de montagem e esteiras rolantes no processo produtivo.

• Produção em série.

• Separação entre a concepção e a execução do trabalho.

• Administração científica.

• Organização da produção com tecnologia de base microeletrônica e células de produção associadas à linha de montagem.

• Produção por demanda.

• Automação e robotização; integração entre empresas.

• Relativa integração entre concepção e execução do trabalho; responsabiliza o trabalhador pelo manuseio dos equipamentos e pela qualidade do produto; programas de participação do trabalhador (círculos de qualidade, sugestões, etc.).

Fábricas

• Grandes estruturas de produção que exigem investimentos elevados.

• Concentração da produção em um único espaço.

• Concentração das decisões.

• Fábricas espalhadas pelos mercados mundiais.

• Reorganização do espaço físico das empresas.

• Descentralização da produção, apenas com decisões centralizadas na matriz.

Perspectiva do trabalhador

• Emprego estável, protegido por contrato por tempo indeterminado.

• Distribuição dos ganhos de produtividade por meio dos salários.

• Grandes contingentes de trabalhadores.

• Rígido controle de tarefas.

• Remuneração salarial regular.

• Crescimento da subcontratação e da consultoria.

• Redução do número de trabalhadores protegidos.

• Novas formas de organização industrial, com jornadas flexíveis, por exemplo, e o retorno de formas antigas, como o trabalho em domicílio, por tempo parcial, entre outras.

• Intensificação do ritmo de trabalho.

• Novas ferramentas de controle do trabalho.

• Introdução de formas de remuneração variáveis, como prêmios por produtividade e participação nos resultados.

Elaborado com base em: HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993; CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.


 

  PAUSA PARA REFLETIR

 

O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz. Os meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho e, além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho. Os meios mecânicos, que, em seu conjunto, podem ser chamados de sistema ósseo e muscular da produção, ilustram muito mais as características marcantes de uma época social de produção que os meios que apenas servem de recipientes da matéria objeto de trabalho, e que, em seu conjunto, podem ser denominados sistemas vascular da produção, como, por exemplo, tubos, barris, cestos, cântaros etc.

 

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. 28ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. Livro 1, v. I, p. 214. (Texto publicado originalmente em 1867.)

 

 

Bibliografia

Sociologia: volume único: ensino médio / Silvia Maria de Araújo, Maria Aparecida Bridi, Benilde Lenzi Motim. - 2ª ed. - São Paulo: Scipione, 2016.

 


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